segunda-feira, 26 de junho de 2017

Seleção não natural.



Indiferente sigo,
Sou rio, frio e luar

Minhas vestes
De geometrias frias

Fremente luz dos dias
Sim.

Evanesço
Cresço, pra quê?

Sobro
Sofro
Sempre

Selados os fragmentos
Da alma
Com unguentos de horas

A penhora do "self"

Em rimas, versos,
Cadência, regência
Ciência

E a velha religião
Vestígios do poder

Nas matas do amor
próprio.

A pólvora verde
Sedenta de fogo santo
Roubado dos céus

E seus muitos dedos
Amarelos sacerdotais

Câmeras alaranjadas
Do ceticismo jurídico
Penal

Paradoxo da pimenta
Da grécia

Geração infértil da literatura
Flagra beijos não dados

Em bocas que não se fecham.

Apenas.


Desmentindo o que diz Platão.

Anderson Carlos Maciel

sábado, 24 de junho de 2017

"Bosque Misterioso"! Eu o chamava
Mesmo sem compreender a palavra
E as sensações que ela me causava.

Ando então por onde sempre andei
Meu eu mesclado a cantos de pássaros
Cigarras, borboletas e flores.

Houve um tempo fugaz, tão gostoso,
Uma história feliz na memória
De um Retiro já não mais Saudoso.

A relva, que na infância era selva,
Traz o cheiro do tempo vivido;

Caído, erguido, nunca esquecido.

Ander Souza
Nos custam as coisas
As pessoas nos custam
Custa-nos encontrá-las
Custa-nos perder
Às vezes temos dificuldade em amar
Custa-nos voltar a rir
Custa-nos esquecer depois
Sempre nos custa um revés
A diária partida nos custa
A vida nos custa a vida

(lota moncada-23.6.17)

05.


Havia esse anjo que era fumante:
Fumava as fumaças de um tempo distante...
Sem perder o pique
Ia pro alambique
E fumava cachaça inalante.


Ivã  justen  santana & Adriano Sátiro Bittencourt
Vou contar uma história : meu vô costumava frequentar o Templo das Musas. E eu, que o amava muito, queria sempre acompanhar, mas não podia, pois era criança. O tempo passou, o Vô cruzou a Ponte entre os Mundos. Eu fiquei adulta e um dia fui convidada a dizer poesia, junto com as "Meninas que Escrevem em Curitiba ", bem lá. E estava nervosa, BAITA responsa. Chamei o Vô e pedi que me colocasse a vontade na casa que era também dele. Quando estava lendo, o vento soprou sobre meus cabelos. Senti alívio da timidez. Li bonitinho um lindo poema simbolista. E um meu, todo transgressor. Senti o sorriso do Vô do outro lado, junto com os companheiros daquela Egrégora

. Quando passeei pelo jardim, as samambaias no caminho se inclinavam quando eu passava. Por isso chamei aquele bosque de Bosque do Acolhimento. E quando fico triste, ou preciso de inspiração poética, é pra lá que eu vou, mesmo que só em pensamentos. ..

Maria Lorenci

GREGÓRIO DE MATOS REVISITADO .


De dois ff (éfes*) se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dois ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dois ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dois ff se compõe.

Se de dois ff composta
está a nossa Brasília,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um milhão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjectura já,
prontamente e até afoito:
Brasília tem letras oito
B-R-A-S-Í-L-I-A:
logo ninguém me dirá
que dois ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

* Pronúncia

ATW

Quase Tudo


A carteira sem dinheiro ou
pior, a ausência da carteira
O medo de vencer ou
pior, a falta de coragem
O homem sem dignidade ou
pior, a ausência de dignidade
O político corrupto ou
pior, a falta de democracia
A vida sem amar ou
pior, a ausência do amor
A palavra sem braços ou
pior, a falta do poema.
*

Régis Mesquita, 2017

Vamos saber envelhecer.

Vamos saber envelhecer.
Estou envelhecendo, percebo isso em uma porção de coisas. Não é pelas rugas e pelos cabelos brancos, tampouco pela dor na coluna, no joelho, pela falta de força na hora de empurrar um armário pesado... Coisas dessa natureza não me preocupam tanto; já esperava por isso. Consigo até conviver bem com essas primeiras mazelas da velhice. Percebo que estou envelhecendo porque estou me tornando mais tolerante, mais amorosa, mais compreensiva e, acima de tudo, mais humana. Na verdade, estou voltando a ser criança. Uma criança experiente, madura e que tem uma porção de histórias interessantes para contar. Passei a valorizar mais a união da família e a perceber melhor a grande importância de se ter verdadeiros amigos. Estou conseguindo conquistar um espaço só meu e daqueles que eu amo e me fazem bem. Não é por egoísmo é porque preciso de paz e de tempo para refletir e escrever. Não tenho mais tempo a perder com vaidades bobas, com pessoas que nada acrescenta nem com relações que vão destruir a minha paz interior. Quero viver o tempo que me resta do meu jeito, sem pressões, sem o compromisso de dar satisfação a quem exige de mim coisas que não se enquadram mais no meu mundo. A velhice não me assusta, sempre soube que um dia ela iria chegar e me preparei para viver mais essa etapa de minha existência com dignidade e gratidão. Sim. Sou grata por ter visto meus filhos crescerem e se tornarem pessoas equilibradas e do bem, por ter bons amigos, por ter conseguido realizar a grande maioria dos meus sonhos e por ter a felicidade de viver nesse planeta maravilhoso e, acima de tudo, por ter o privilégio de ter vivido tanto, quando tantas pessoas morreram tão jovens. Se revoltar porque está envelhecendo é uma grande ingratidão. Ninguém veio a esse planeta para ficar, viver é como fazer uma viagem e a velhice é a viagem de retorno para casa. Nada aqui nos pertence, é um grande erro se apegar demais a coisas materiais e a essa vida. Se tendo consciência disso tudo se torna mais fácil.

De Concita Weber

Apocalipse não


Pode parecer delirante, puro devaneio, mas venho prognosticando o desaparecimento do chamado mundo interior dentro de alguns anos.Uma alucinação? Uma visão? Pode ser, é claro. No entanto, não estou sozinho nessas maluquices. Afinal, muito já se falou e se escreveu sobre questões estranhas e impertinentes.Um dos objetivos da alquimia, por exemplo,era transformar metais inferiores em ouro.Outro era descobrir o elixir da longa vida que curaria todas as doenças.
Portanto, não me falta atrevimento e ignorância nessa sugestão mencionada no início.E para reforçar aquela ideia encontrei, em releitura de Bachelard, alguns textos que podem clarear e enriquecer meu prognóstico. Um deles , o que trata da casa natal e a casa onírica, o autor confessa : "Eu não sonho em Paris, neste cubo geométrico, neste alvéolo de cimento, neste quarto com venezianas de ferro tão hostis à matéria noturna.Quando os sonhos me são propícios, vou para longe, numa casa na Champagne, ou nalgumas casas onde se condensam os mistérios da felicidade".
Mais adiante, Bachelard diz: "De resto, colocando-nos no mero ponto de vista da vida que sobe e desce em nós, percebemos bem que viver num andar é viver bloqueado. Uma casa sem sótão é uma casa onde se sublima mal; uma casa sem porão é uma morada sem arquétipos".
E Kafka,citado por Max Brod, morou numa casinha de quarto, cozinha e sótão erguida sobre a terra, em Praga, na Alchymistengasse. E escreveu o que segue: "É um sentimento muito particular o de ter sua casa, de poder fechar para o mundo a porta não de seu quarto, não de seu apartamento, mas simplesmente a de sua casa; de pisar diretamente, ao sair, a neve que cobre a rua silenciosa..."
Minha suposição é que o novo jeito de morar também deve estar contribuindo para esse fenômeno de horizontalização e falta de reflexão acelerada pelos avanços tecnológicos. A velocidade vertiginosa e a multiplicidade sedutora dos celulares, também colaboram nesse espécie de apagamento da interioridade. Ou pelo menos diminuem a capacidade reflexiva, a percepção do estar-aí e uma porção de coisas semelhantes.
Como sou velho e vivi todos esses períodos de transformações, fico assustado quando vejo as pessoas, no metrô e em ônibus, envolvidas com esses aparelhinhos, sem se dar conta do mundo real em sua volta.

Rubens Jardim

Festa


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Cemitério forjado dos corações livres.

Longe vão os olhos
Que me criam
Insepultos corações

No porvir da aurora
Certa.
Todo ocaso postergado.

Como se de finais
Banais ou previstos
Cistos, viés quais.

Deseja emergir o mel
Das favas fartas
Safra rara do invertido
Fel.

Minha destra e convicta
Opinião

Qual sol verde
Cria asas douradas
De liberdade malograda

E revelações globais
Clichê

Circunscrito de empiria
Anotada e diagramada
Do falso ao verdadeiro

Assino o contrato
Cifrado do santuário eterno.

Os versos que me doam
A causa dos anjos e anjas

Voam rios ao encontro de si

Sem responder aos porquês

Águas represadas
Do amor próprio
Sedentas

Em fluir direção ao mar
Da estética livre

Do ser ou não ser.

Anderson Carlos Maciel

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Catacumba das inexpressões solícitas


(Adulação da magestade irreal)

Deveria o devir
Devanear

De vês em par

Ademais calar

Ou sussurrar programas
De TV porca
Ao meu luar

Suas frases feitas
Em cantata
Salutar

Assédio venéreo
Sangue, suor e ar

Os vocábulos jogam
Tristezas ao mar
Sóem contemplar

Força ou técnica
Cacofonias na história
A boiar boiar boiar

Penso
Que a fonte jorra
E a borra borra o altar

Coleciono vaga-lumes
Sem dilatar pupilas
Pois fosforila, - fosforila
No estrume global
A conjugação do meu amar

Cinco sentidos perfeitos
Que ainda possuo

Rotulam a cantar
Látex, xerox, Detox
De inox o meu versejar

Nuances da cantilena
Seriema
Iracema, de sempre

A manipular as gentes
Vender-nos os pentes

Respingar nossos livros
Cativos
Altivos

As capas dos volumes
Convidam à reprodução
Infértil

Relatório que encomendarei
À comunidade beneficente
Da psicanálise

Se ela topar.

ACM

Pontuação livre




Desespêro, esmero
Tempero: sal rural

Ó musa obtusa
Exclusa e frugal.

Que se revele a plebe
Aquém
Acém e alho
Carne moída pelo tempo

Os cata-ventos indicam
A entrada, a morada,
A enseada
O embalsamar.

Ó relicário simbiótico
Que reluz o pús patriotal
Revide o açoite periférico
Com cifrões cadavéricos
No mercado editorial

Estamos carentes de vírgulas
Expressão cataléptica
Pelas vias aporéticas

Do meu filosófico sinal

Lua
Lua
Após lua

Sol após sol

Noites adentro,
Estômagos afora,

Revemos chavões
Que nos imploram aurora.

Devoram-nos os corações,
Os fígados,
Cartilagens,

A quem porventura
Acordar, vigília

E ponto final.

ACM

sábado, 17 de junho de 2017

DECLARAÇÃO DE AMOR


Ao vê-la ali na sala se deu conta que nunca fora um homem romântico nos gestos, menos ainda com as palavras. Saiu discreto, voltou com uma rosa vermelha. Entrou em casa tímido. Aproximou-se da esposa de longos anos, balbuciando sua confissão: “Eu te amo”. Colocou a flor entre as mãos da amada e chorou sobre o caixão.

JDamasio

BICHINHO DE PELÚCIA


Pela casa, eu transitava. Quantos vazios. No quarto da filha, muitas lembranças. A essas juntava-se um ursinho de pelúcia, parte da infância da qual ela se esquecera de levar. Olhei para o urso marrom: encardido, empoeirado, olhos foscos a me fitarem em cima do armário. Parecendo pular, o ursinho caiu em meus braços. Estava só (igual a mim). Deitamos no sofá. Antes do impulso de abraçá-lo, ele me abraçou.

JDamasio

1933, francine


a neve já foi mais branca - pouco cinza,
é verdade, desde que te apregoaram uma
estrela. ainda tenho a pedra que carreguei
junto com um punhado de arroz e um laço
de nossa mãe. 1933 e já se dizia em erguer
os portões; em arrancar nossos dentes de
ouro e nossos pares de sapatos. depois era
só enterrar estrela por cima de estrela. desde
lá, os pianos temiam perder os dentes...
pensávamos nunca poder deitar uma pedra na
tampa de um querido túmulo - até eu, francine.
até eu.
mas em breve o trem irá esmagar a neve contra
os trilhos. e da janela deste vagão não entra
sequer uma magra réstia de luz: é possível que
tenham posto o sol dentro de um feio pijama.

Dom Jorge
um anjo me parece pouco e lento
pra todas as batalhas que sustento."

RR

O sentido da existência


(Da câmera)

As noites unidas
Em floradas negras

Sobressaem-se transparências
No jogo das tristezas

Suave como o breu
Plebeu por sobre os altos
Intelectos de si, corpo.
Quão!

Jaz a poesia,
Jaz a fantasia nas telas
Em vielas de sentido
Como se findo
Como se garrido

Uma faísca verde
Contorna o universo clichê
Emerje o real, - sinal
Da TV, digital.

Ao final da chavão
Emoção em me ver

Nota, -- e anota.
Consciente, da gente
Fremente, portas, suásticas
Elásticas como látex
Relax
Facções exatas, atas
Do supremo poder.

Sim, uma faísca verde
Perene de sóis bemóis
Enlua, enluta, luta contra
O ser.

Descreve e projeta a seta
Como meta pura da agrura
De viver.

De estrutura em estrura
Ler, levar, lar, louvor
Ou calor, ou telepatia fria

Na estrebaria do que sentia
Evanescer

Seu espetáculo jogava as cartas
Nas atas dos meus fóruns
Cíveis

Entabulei
Criei

O sonho desperta Morfeu
Que conclui o parâmetro
Divino
Do uso da palavra pelos mortais.

Se a gargalhada do teu destino
Não se repete mais

De telas a telas que vão
Vão
Se fechando - verbo
Não
Não celebrando - servo
Nervos e dores e amores

E audiências de verde brilho.

Anderson Carlos Maciel


Me(n)tal


não sou ouro
nem prata
sou feita de um Rio
que me cobre a alma

Chris Herrmann

QUANDO EU NÃO VEJO A HORA


Quando eu não vejo a hora
e olho para o relógio,
o relógio só me diz:
calma, não tenha pressa;
tudo tem seu tempo.
Quando não vejo
a hora passar
e olho para o relógio,
o relógio só me diz:
apressa-se, você
perde muito tempo.
É o relógio
quem manda,
é o relógio
quem disciplina.
Mas o que o relógio
não sabe,
é que o relógio obedece
a um compasso
ditado pelo
Exército Mundial de Relógios.
(apenas as horas diferem,
mas os preciosos minutos
e segundos
são os mesmos;
os preciosos minutos
e segundos
é que contam)
Esse gigantesco exército
marcha na mesma passada,
mas esses relógios todos
não sabem
que diferem entre si:
uns são
mais antigos, pendulares,
e outros,
mais modernos:
a quartzo, bateria solar,
atômicos, digitais.
Esse gigantesco exército
é composto de relógios
que não sabem cada qual
o tempo
que vão durar:
a cada segundo,
há baixas e adesões
às suas fileiras.
Os relógios olham
para quem os olha
com um olhar
invariavelmente
severo;
o que os relógios
não conseguem olhar
é para a hora
que eles próprios indicam.
Os relógios,
sem espelhos, não conseguem
olhar para si mesmos;
os relógios olham apenas
para fora
e não conseguem
olhar
para seu dentro.
O que os relógios
não conseguem ver
é a própria hora.

Paulo Vallim - 17.06.2017
teu coração dente de leão
torna leve tudo na vida
ameniza a aura ácida
espinhada e crua
do mundo cão sem poesia
teu coração dente de leão
me coloca em outra dimensão
casa de Ar da minha espera
lá onde se aprende
a ver as estrelas como elas são
lá onde a gente dança
na montanha alta
bordada de nuvens
abandonei tudo que é rude
para ser Ar
esta coisa vital
que não machuca
para - antes de morrer -
segurar tua mão
te abraçar
e escutar
teu coração
dente de leão

Bárbara Lia
quem te pariu?
-a terra.
quem te matou?
-o mundo.
quem te comeu?
-a guerra."

RR

ELES ESTAVAM NO JARDIM DE VEREDAS QUE SE BIFURCAM


hoje foi o meu primeiro dia com borges
- ela disse –
[após ter lido 'o milagre secreto']
saí de mãos dadas com ele
- ela disse –
[após ter redescoberto
a reversibilidade do tempo:
a epígrafe do conto
perguntava pelo tempo
em que ela esteve com borges
e ela respondia que um dia
ou parte de um dia
mas ambos sabiam
que haviam estado juntos
durante muitos anos]
ensinei a borges
o que eu sabia fazer
com o meu corpo
e com o dele
- ela disse -
[nada que maría kodama
já não soubesse
mas estava ocupada
por demais
em datilografar]
ele aprendeu rápido
o danado
- ela disse –
[nada que ele
já não soubesse
ora, tantos livros
imaginários]
e vi que há muito
ele não gozava
- ela disse -
e muito gozou
eu vi
eu senti
- ela disse -
[no rádio
um outro jorge sedutor
a tudo confirmava:
calma,
todo está en calma,
deja que el beso dure,
deja que el tiempo cure,
deja que el alma
tenga la misma edad
que la edad del cielo]

Erre Amaral

É preciso

É preciso
correr, balançar como um ramo de açucena,
encontrar o horizonte, encantar alguma fonte,
abrir os braços como se pétalas de borboleta fosse
e abraçar o vento para que não cesse a magia.
Não pelo canto,
Mas pela fome de grito.
É preciso
conter o pássaro antes que o céu desça
guardar segredo como anjo contido em pedra
constranger a rosa antes que se abra,
deter o rio para que não lave as luas onde adormeço.
Não pelo brilho,
Mas pelo desejo de luz.
É preciso
brincar nas nuvens com os pés na terra,
sorrir como nos sonhos, mas de olhos abertos,
pintar estrelas num coração solitário, sem arrebentar amarras,
florescer em vida, mas ocultar primavera.
É preciso velar silêncio,
para que não fuja o segredo
de que há estrelas
e amores
maiores que a terra.
(pat zam*)pt zamberlan



Dizem que quem passa o dia na janela sabe tudo da vida dos outros, sim eu sim, fico na janela quando não estou ocupada, porém mechendo no celular. Passo o dia em casa, como dona de casa normal, mas eu juro por Deus!!!... E esses dias abri uma fresta da janela e disseram da rua assim "ela tá enchendo uma  garrafa d'água??... -_- ...-Não, tô enchendo o tanque da minha nave espacial!!!...Tenha dó!!!...

Daiane Irschlinger

E assim você deve esquecer
Querem dizer pra você
Que não tem nada
a ver
Dizem pra você esquecer...
Que aquele olhar....e sorriso.
Não tinha nada a ver..
Querem dizer pra você!
Que aquela sensualidade sem aviso. É pra você esquecer...
Querem dizer ......pra você!!!!!



 Atile Alberto Muniz

A ALUNA ESPERTALHONA


A professora de Ciências estava dando aula para uma turma da 6ª Série e perguntou:
— Qual é a parte do corpo humano que aumenta quase dez vezes seu tamanho quando é estimulada?
Um grande silêncio tomou conta da sala. E a professora insistiu na pergunta:
— Então, turma. Alguém sabe? Qual é a parte do corpo humano que aumenta quase dez vezes seu tamanho quando é estimulada?
Até que uma das alunas, Natália, que se achava a mais esperta da sala, levanta e diz muito brava para a professora:
— A senhora não deveria fazer uma pergunta dessas para crianças da 6ª Série! Pois eu vou contar para meus pais e eles vão falar com a diretora da escola, e ela vai demitir a senhora! Tudo com base no Estatuto da Criança e do Adolescente! E meus pais ainda vão chamar o Conselho Tutelar para lhe prender!
E para o espanto de Natália, a professora não somente ignorou o ataque dela, como repetiu a pergunta:
— Mais uma vez, pessoal, vou repetir a pergunta. Qual é a parte do corpo humano que aumenta quase dez vezes seu tamanho quando é estimulada?
Então o Rodrigo, um aluno muito tímido mas inteligente, levanta e responde:
— A parte do corpo que aumenta dez vezes seu tamanho quando é estimulada é a pupila, professora!
Ela responde:
— Muito bem, Rodrigo!
Em seguida, vai até Natália, que não sabe onde se esconder de tanta vergonha, e diz:
— E quanto a você, ‘mocinha’, tenho três coisas para lhe dizer: a primeira é que você não leu a sua lição de casa; a segunda é que você tem uma mente muito suja para sua idade. E a terceira... dez vezes?? Hahaha! Um dia você vai ficar muito, mas muuuuito decepcionada, viu?

Keila Matiori 

REQUERIMENTO


Eu, abaixo assinada,
gozando já de madura idade,
ciente dos males contidos
na condição de ser humano
e também das bem-aventuranças de sê-lo,
mulher, com muito gosto e alegria,
residente numa aldeia burguesa,
sem praia ou paisagens doces,
tendo por gosto, escolhido viver
e fazê-lo com alegria,
jovem na aparência, apenas por acaso,
jovial internamente por vontade própria
e convicção,
tendo sempre a idade interna dos sonhos,
das lágrimas nos olhos, das grandes paixões,
de ódio á mentira, ao malogro, à estupidez,
venho, muito respeitosamente
requerer à tua candura
à doçura do teu abraço,
que se digne conceder-me
a alegria de reencontrá-lo,
para que o mundo seja inda mais belo,
o dia se vista de sonho
e a tua vinda povoe o meu deserto.
Nos termos deste pedido,
ciente de todas as impossibilidades
reais e imaginárias,
solicito deferimento e amor.

(suelidesouzapinto)
~Por Sueli Souza Pinto


panfleto e dispersão onírica
no me gusta la realidade e
mucho menos suas entranhas
pertenezco ao país dos sonhos e não
das maravilhas
sou letra e fogo
seta e sendero
sou um caminho perdido num labirinto deserto
sou a última forma lírica estendida como roupa
no varal
sou o sol q desce e aperta a mão a mulher q canta uma
ária matutina
sou o mendigo na calçada e seu cão
apenas o cão sentado em delírio febril
sonhando películas de buñuel
um olho e uma mão
o girassol no bolso de van gogh
uma orelhão perdido num bar sem sentido
as horas aportando no caos
telefones fechando-se mutuamente
e uma palavra
uma palavra incendiária feito uma nuvem e seus cabelos:
sou um sonho q sonha-se a si mesmo
na vertigem do dia

 Sérgio Villa Matta

TEATRO DOS PUROS


[Personagens principais: Puro, Purinho e Pureza]
[Personagens secundários: Pacote e Pacotinho]
[Ambiente: um chalé na serra]

PURO: – Pegou o assunto?
PURINHO: – É dizer aqui.
PACOTE: – Se somo ao máximo?
PURO: – Pula por ali.
PURINHO – Livrou o dele?
PURO: – Larga de ti.
PUREZA: – Quem se fedeu?
PACOTINHO: – O Bem-te-vi.
PACOTE: – Pego logo?
PURO: – Ache antes o primo.
PACOTINHO: – E o do Santo?
PURO: – Eu sublimo.
PUREZA: – Já é suficiente?
PURO: – Jamais, é lorota.
PUREZA: – Arreganho a boca?
PURO: – Abre mais, arrota.
PACOTE: – E se me pegam?
PURINHO: – É porque desceu.
PACOTE: – Desci de onde?
PURINHO: – Do teu apogeu.

[Rinaldo de Fernandes]

[De “O Livro dos 1001 Microcontos”, nº 850]


A ÁGUA, SEMPRE.


Por vezes, ele tinha a sensação de ser
levado por um rio de águas frias.
“Penso naquela mulher como um
campo incendiado”, disse-me.
A mim, teceu um minucioso cenário do amor:
de Romeu e Julieta a Capitu e Bentinho,
de Dante e Beatriz a Penélope e Ulisses.
Recitou versos de Neruda, de Florbela Espanca,
de João de Deus...
Sabia das peripécias literárias do amor
como poucos. Mas, do seu, disse-me que
“foi como ter pulado um Carnaval inútil.”
Era um homem acostumado aos gritos
e à mansidão das horas.
Há muitos anos que decidira não
olhar para o sol quando nascia e
quando se punha.
Por um mísero momento, Oswaldo
contemplou a paisagem com o olhar
que mais parecia o de um deus sem trono.
Fixou os olhos negros e eternamente
lacrimosos como quem avistara uma
mão que acena numa luva de cetim.
Então, conseguiu olhar para as próprias mãos
tal os que se olham no espelho.
(as concavidades vazias de seus olhos)
Já não suportava mais o excesso de
palavras que não conseguiu dizer por
toda a vida e que agora resolveram
corroer sua cabeça.
Transbordou com uma caneta
num guardanapo amarelado
feito uma maré no escuro:
“Um homem tem que buscar alguma coisa,
nem que seja a loucura de querer
o impossível”.
Esqueceu os cigarros (e o papel)
no banco do passeio.

Do livro inédito (SEMÂNTICA DAS AVES), de Nathan Sousa.


uma parte de você
me persegue como
cisco no olho
final de campeonato
coreografia da torcida
no calor da arquibancada
canção tatuada na cabeça
tarde ensolarada de junho
mimo essa taça de vinho
o traço além do grafite
linha antes do infinito
uma parte que é maior
que a soma das partes
gole de cachaça
um disparate
essa parte de você
como um livro aberto
na página mais bonita
que fica em mim sem
estar e que me atravessa
como a curva entre dois
braços
[Reynaldo Damásio ]


"Dormi rosas assistidas no
devedê
sonhei
vinham sorrindo
públicas cores de paixão
vinham à meus pés
macias pétalas
perfumes da noite
atravessados na garganta
quase a engasgar
entregava-me
deitei-me num quarto (1/4)de hora
enroscando a boca na tua saliva
naquele quarto me despi
rodava a fita ainda zonza
quando acordei
ouvi o barulho e sem saber
se era o canto dos pássaros
ou o perfume das rosas
feri-me nos espinhos"
Thiers Ribeiro de Andrade (Thiers Rimbaud, Rosas assistidas, Chovem as Luas de Paris, Big Time, 2015)


Sobre sentidas palavras
Belas são as palavras
A se engastarem
No amor!
Arte por tão belo ser,
Incontáveis mas
Tão poucas!
Sempre há palavras
a ele entregar,
a esperar o amor,
A definí-lo
Na plenitude
De sua incompletude,
Algumas mais:
O amor habita
As horas madrigais,
Madrugadas finitas,
Como infinitas
Num crescente sentimento
a cimentar o amar,
a sentir-me nas águas
cálidas
Feitas letras para o mar,
Sentimento sem fim
Por ti, tanto e tanto amar...

Jorge Colleta Serafim
quem te montou?
-o avesso.
quem te bebeu?
-o deserto.
quem te nutriu?
-o espesso."

RR

Razão e imaginário.


(Figuras e orbitais do além-estética)


A quem, aquém, aquiescer
Qual mal lodo ou parecer
Se

Lá longe no verde porvir
Detectei prismas amarelos
Pensamentos rodeados
Luas de iletrados
Às chaves canhestras
Significados, pormenores

Sói ser
Cadafalso coletivo
No vivo mais vivo
Arco-íris do poder

Se nada, se translada
Quem é você para a graça
Na praça

Ao longe,
Fonte,
Nobre, ode, gargalo
Se falo, se calo

Se amo, se abandono
O livro.

Noites adentro, céus afora
O sonho reverbera
O ramo de era
Na fronte da aurora

O amor se liquefaz
Em atmosfera rarefeita
Ainda há gente que se deleita

As notícias me chegam
Em cavalos alados
Nas vias do ser amado
Sonatas
Fartas

Cresce um átimo de solidão
No quintal do destino.

Acaricio as letras

Uma faísca verde perpassa
O universo em se esgarça
Normalmente

Loucamente se entrega
À prancheta cega

Se ama, se deixa

O exército de cegos
Sacrifica galinhas-pretas

No altar da sabedoria estética.

Flui o oceano da beleza
Apolo contorna a lira
Aquilo que ele tem sobre a mira
Ao toque do clichê.

O altar da simplicidade se torna belo
Atemporal solidão
Na vastidão das referências cifradas.

Torneamos as enseadas da vigília
E voltamos para nossas casas
De liberdade pan-socrática.

A andorinha faz seu ninho
Na pauta de Deus.


Anderson Carlos Maciel
não me interessa
a poesia não me interessa
quero ir ao seu enterro e cuspir na sua cara ordinária
de vil zombeteira das ações humanas
sou uma lança
uma valsa
um soco inglês
um menino malcriado quebrando janelas
um fuzilamento na praça central
a poesia q se exploda
q se foda
q morda o próprio rabo
motor rangendo os dentes aos semáforos
sou turbilhão e fúria
punhal e sangue
sou apenas um homem maltrapilho
q caminha pela estrada
sem q haja nenhuma estrada
sou apenas a lágrima e o sim
o amor e o perdão
a poesia é tudo o q não fui
não pude ser
sou apenas um sujeito desinteressante num sábado à tarde
como sempre fui
e leio poemas q me fazem soluçar
q me estraçalham e me fazem chorar
e grito e mordo meus próprios braços
e voo e voo livremente feito um pássaro
um cavalo ou uma zebra


 Sérgio Villa Matta

Meninas mal e bem faladas

s
Rua escura, meninas mal e bem faladas marcam seu ponto, algumas desfilam aparentando orgulho do ofício. Parecendo perdida entre elas, com um jeito assustado, uma jovem com uma roupa que acentuava suas curvas, mas discreta, anda apressada. Um carro novo de um homem velho vai devagar até alcançá-la: - Cem reais!
Ela ignora, continuando seu caminhar.
- Cento e cinquenta!
- Está pensando o quê? Eu não sou essas meninas... vim visitar minha tia doente, que mora logo ali.
Ela apressa os passos.
- Duzentos reais!
- O senhor está enganado, sou noiva, não me venderia por duzentos reais!
- Trezentos!!!
- Olha! Não posso ficar mais que uma hora, meu noivo ficou de ligar para a casa de minha tia. Se ele desconfiar... E pague adiantado.
No dia seguinte, naquela rua escura, entre as meninas mal e bem faladas, com jeitinho de assustada, lá estava ela, com seu caminhar apressado.
JDamasio, A compota de pimenta e outros contos puramente picantes, 2006



SONETO DE VERSOS COMPLETADOS


Cantar a natureza e sua pujança,
o gorjeio de pássaros diversos:
a vida se assemelha a uma dança
e quero passeá-la nos meus versos.
Lembrar velhos amigos que se foram
e contemplar as novas amizades,
sorver o vapor d´água que evapora
no bule de café, com a vontade
de bebericar seu conteúdo
que toca mias papilas gustativas.
Deixar de lado sempre o contudo
e observar sempre as sempre-vivas
que crescem no jardim, e olhar tudo,
mirar o céu azul e dar um viva!
Bento Ferraz

Jun/2017

O LADO DE CÁ DE UM MAR GIGANTE


1
Não me interessa mais se devo fumar meu segundo cigarro. A satisfação perdeu o sentido depois de tantas mortes, de tantas perdas, de tantas imagens deixadas no fundo da última gaveta da memória. O peso da idade aparece exatamente quando não conseguimos esquecer o que realmente valeu a pena. Sim, Cícero nos ensinou sobre as estantes de Borges. Não, não sou profeta! Sequer sou advinha. Não gosto de jogos de azar, não faço apostas, não brinco de ser Deus. Vivo no mundo que me permite andar sem contas com o tempo. Sou consciente do que devo: nunca quitarei meu débito com o relógio. Tenho dias cinzentos, sabe! Mesmo quando faz muito sol, eles são assim: cinzentos. Não reconheço esse que me leva pela mão. Não reconheço esse anjo da guarda de quem se fala como alguém impregnado de responsabilidades. Ou posso mesmo entender que, caso eu o tenha, ele deve estar cansado, muito cansado. Tão cansado que me acompanha apenas com os olhos baixos, à distância.
A cada dia, sinto-me feito muito mais de osso e de vertigem do que de qualquer outra coisa. Olho para os lados, estudo a região que agora me tem. O céu está aberto entre o azul e a luz perpétua. Ao longe, uma casa abandonada e a cortina de calor no fim do asfalto. Neste campo de veredas, há um norte guardado no estirão, dentro do peito. E involuntário é seu legado de rezas: os lábios pronunciando senhas sob a égide do sol (Grão-Mogol, Jequitinhonha, Paracatu!). A estrada avança! Há tapetes de soja no sul do Piauí. A madeira deita, o gado dorme. Pisca os olhos, derrama uma gota de dor em seus incêndios espontâneos, esporádicos. O cerrado é terra de vidas retorcidas como retorcidas são suas árvores, suas odes, suas belezas. É terra de esperança indefinida como indefinida é sua nobreza.
Limpo a testa com o braço esquerdo, respiro o ar quente e esfumaçado. Sinto o coração aquietar. Paro por um instante e penso: “estou em casa!” O céu está povoado de urubus; o céu de poucas cores. Há nuvens amareladas de fumaça. Contemplo tudo por alguns minutos, e uma mulher de idade indecifrável passa, na outra margem da pista, com uma lata cheia de castanhas, na cabeça. Ela leva uma criança. Um menino magro, pescoçudo. A camisa faltando na cintura, as pernas franzinas, um pouco bambas. A mulher olha-me, rapidamente, com o canto dos olhos. A estrada está vazia. Guardo no bolso um terço que um dia eu recebi de presente de minha mãe como joia de proteção. O menino olha para trás, a mãe grita alguma coisa com ele. Teresina cresce à minha frente. Ah, como cresce! Ah, como isso me machuca! Mas a cidade fica a uns mil quilômetros e eu não tenho pressa. Não tenho mais ninguém e isso não me deixa saber quem de nós é a mira ou o alvo. No mais, somos balas perdidas, sem medo ou culpa. Eu só preciso fazer o Sinal da Cruz e subir a minha escadaria particular. Ponho a minha mão direita sobre meu peito. Não chove há muitos meses lá fora. Não chove há muitos séculos aqui dentro.
Todos os dias, ao acordar, vejo uma grande extensão de pradaria (desabitada e cinzenta), e uma faixa de terra crua e avermelhada, onde alguns cães brincam com alguma coisa para esquecer a fome. Eu tentava chegar a uma cidade esquecida pelo tempo. Não havia muitos buracos na estrada. O percurso exigia paciência. As carretas carregam soja, minério de ferro, madeira para construção, bois taciturnos, homens de barba e isso retarda a viagem. Descanso meu braço direito sobre minha perna e sinto o terço guardado no bolso. Eu estive nos confins do Maranhão, sentado na calçada, numa noite em que o horizonte capturou as minhas vistas, enquanto meu pai dormia numa rede amarela como o ouro.
Dez anos depois, lá estava eu, sentindo a fumaça de óleo diesel, contemplando as árvores semitransparentes daquela paisagem de pouca vida. Sinto-me atraído pelo desconhecido. Pela solidão do desconhecido, não pelo alvoroço de sua cegueira. A pista me chama!
Mas eu estou aqui, no interior do Piauí, respirando aquele ar seco e quente. As coisas quase sempre estão ausentes de vento por aqui. Retorno à pista e ouço um disparo de espingarda vindo do meio da mata rasa. Nenhum pássaro se espantou. Eu preciso chegar antes do anoitecer. Olho para o leste procurando não olhar para o lado do Maranhão. Percebo meus olhos brancos e um pouco mortiços. O vento esfria. Eu penso em parar para sentar e respirar um pouco melhor, mas fico com receio de que alguém possa se aproximar. Acaricio o terço por sobre a calça, mais uma vez. Por baixo do banco, eu guardo um revolver 38 de cano curto com cabo de madeira encerada. Tenho porte, fiz curso de tiro. Tudo certo! O movimento fica menor, as horas avançavam e uma leve brisa anuncia o fim do dia. Resolvo olhar para o horizonte à minha esquerda. O crepúsculo me massacra! O asfalto parece um tanto cinza-chumbo. Não ligo o som. Sinto meus olhos ardendo, a aurora cinzenta. Atravesso uma longa região totalmente queimada. Tudo está desbotado pela ação do tempo. Um homem que está sentado em uma rocha, de corpo magro, com correntes de prata no pescoço, que mais parecia um vulto cinzento, acena para mim.
A estrada chega a seu ponto mais alto. Ouço novamente um tiro de espingarda. A brisa esfria um pouco mais. Olho mais uma vez para o lado do Maranhão e suspiro os mais profundo que eu posso. A região é de colinas nuas com casas cobertas de telhas escuras. Os vultos se escondem por detrás das árvores e das rochas. Um trovão ronca do inesperado. Olho para o céu. Não há mormaço algum. O Maranhão de meu pai está ao meu lado. Eu não sei o que pensar diante de tanta dor e de tanto vazio, no entanto, alguma coisa me diz que eu não devo saber. O trânsito fica novamente lento. O número de carros na pista aumenta bastante. As luzes se intensificam. Comprimo os olhos para ler o que está escrito nos outdoors que ficam no acostamento, à esquerda, um pouco despedaçados. “Seja bem-vindo!”, é o que dizem.
2
Eu durmo pouco. Sinto pouca fome. Sinto fome de culpa! Tomo apenas um pouco de água gelada pela manhã. As senhoras me cumprimentam, são simpáticas, mas alguma coisa em seus sorrisos fáceis me incomoda. Vejo um caminhoneiro baixo, barrigudo, meio calvo, branco, quase avermelhado, de meia-idade, de passagem entre o caminhão e um banheiro improvisado por trás de umas mangueiras.
Ele tem um dos joelhos um pouco inchado, e se arrasta, sem camisa, com a toalha no ombro, em direção ao banheiro. Há uma ampla sala com paredes amareladas, cheia de cadeiras de espaguete, de mesas e cadeiras de madeira, e um velho sofá marrom perto do aparelho de TV. Um corredor comprido liga a sala à cozinha. À esquerda do aparelho de TV, um altar improvisado sobre uma mesinha de madeira, com dois castiçais de prata e algumas imagens de santos. Nada neste ambiente me parece interessante. Uma garota brinca com uma boneca de pano sentada no sofá. Chove há duas horas, um chuvisco monótono. Uma mulher grita para que a menina feche as janelas da sala. Um carro de som anuncia uma festa, mas o barulho infernal não me deixa compreender com clareza onde seria. Pouco importa! O que eu quero é superar a noite e partir para casa. Mas minha casa é o cerrado contorcido, a língua áspera banhada no pó queimado. Confiro o revólver deixado na mala. O vento faz a janela bater na grade e isso dura a noite toda, todas as noites. No quarto, há um guarda-roupa de cerejeira artesanal, uma cama de solteiro, um cabide e um espelho de meio-corpo. A única coisa que se movimenta nas ruas são os pedaços de papelão que o vento arrasta. Acompanho um pouco o que se passa através de uma das brechas da janela.
Um menino olha em minha direção, do outro lado da avenida. Paro de respirar por um instante e meu coração se acelera. O cerrado respira alto, a cidade se agita, há fogos e rajadas de alegria desvairada. Atiram na cabeça do menino. Dois tiros. É tudo muito rápido. Eu apago as luzes do quarto, procuro minha bolsa, a arma. Mesmo no escuro, consigo encontrar o revólver. Uma chuva tímida torna a cidade mais abafada. Meu suor está frio. Minha fome é de labirinto e fuga. A noite é de lua minguante. Eu preciso dormir, sonhar. Mas eu não ouso fechar os olhos ou desviá-los do alvo. E o alvo é o cerrado, devastado, irado, carcomido.
Acordo com as primeiras luzes do sol. A luz crua do dia entra pelo teto. Olho mais uma vez pela brecha da janela. Ainda consigo ver alguns resquícios da mancha de sangue no chão lavado pela chuva. O dia está pouco nublado. Sinto um cheiro intenso de fumaça de borracha queimada pairando sobre a estrada. Eu penso em uma criança morta há menos de vinte e quatro horas. O que ele teria imaginado um minuto antes de seu fim? Teria sonhado ou desejado algum brinquedo? Ele cumpriu uma missão? Não, não vejo seu rosto. Não sei seu nome. Não penso em dogmas, não acelero a respiração de Deus. Mas o menino está lá: a cabeça sobre a poça de sangue. A mãe, silenciosa como uma pedra sobre o sol, agachada ao lado do corpo.
Não julgo o mundo! Aprendi a temê-lo e a sorrir de forma inesperada. As árvores na beira da pista parecem saber o que eu estou pensando. O céu se abre um pouco. Um trovão ronca baixo e breve.


Do livro inédito de contos (OMURA), de Nathan Sousa.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

escapemos, nem que seja pela porta dos fundos,
o amor anda impróprio para consumo.
escapemos antes que estejam mortos todos os rumos
e todos os rios e todos os pássaros.
escapemos mesmo que escondidos
debaixo das asas de um diabo de anjo escasso.
antes da descrença
antes que termine o prazo para as devoções.

Lázara Papandrea

LAMENTO


Lamento se não te trago
notícias boas.
Hoje pousou na minha janela
um verso encantado,
metrificado,
rimado,
musicado.
Eram asas sonoras,
uma canção antiga
num vento abandonado.
Era a saudade...

Edmir Carvalho Bezerra

O corpo que veio:


Passava eu em frente a escola no exato momento em que o corpo veio buscar a criança. Não segurou as mãos dela, não olhou nos olhos dela, não carregou a mochila. O corpo só enxergava o celular em suas mãos. Caminhei atrás do corpo e da criança devagar. A criança tossiu uma, duas, três vezes. Peito cheio. Reclamou que lhe doía a garganta, disse que a mochila estava pesada, pediu ajuda ao corpo. Mas aquele corpo não tinha ouvido. Duvido até que tivesse olhos, boca, nariz e todos os outros órgãos que possuímos. Era um corpo oco. Um corpo seco, que a criança conhecia pelo nome mãe.
Lázara Papandrea

ANTIFÁBULA


Cavas com as mãos úmidas
pedras do aquário
Limbos profundos onde peixes se encantam
com suas próprias sombras
Cores escorrem entre os dedos
Não verificas o precipício da tarde guardada.

(Leandro . Rodrigues .)