sábado, 21 de outubro de 2017

A quem me queima
e, queimando, reina,
valha esta teima.

Um dia, melhor me queira.

Paulo Leminski
veloz
como a própria voz
elo e duelo
entre eu e ela

virando e revirando nós

TESTAMENTO LÍRICO

 (Hilda Hilst)

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi

Na criança que fui, tão confundida.

À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.

O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.

Eu era uma criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo

Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil

Querer deixar um testamento lírico

E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)

A criança que foi. Tão confundida.


Flagrante




Seis da tarde.

Noite engole
a cidade.

Dos pontos de ônibus
derramam-se pessoas
com voracidade.

Chove cansaço.

Inverno sopra
seu hálito de aço.

Penetra nos ossos.

Mistura-se
ao vaivém das luzes
explodindo em fachos.


Ricardo Mainieri

Líquida


A alma seca
recebera aquela
voz – água- corrente
de repente
vida Tornou-se líquida
tornei-me líquida
espasmos, pensara;
água penetrara
pele seca!
Germinei noite a noite
Desejara tragar-te
num gole só
sem verter
uma gota sequer
peito cru,
senão agreste
inchado a golpes
de pedra; enterrado
em terra rachada
fora inundado
Inundação seguida
de contínuo desafogar
rios reprimidos
desoprimindo águas
A vida jorrava
Eu jorrava
Cores jorravam
Sons jorravam!
O amor transformara
sólido em líquido
não recorria
aos petrificados:
Escorri!
Eu,
agora alma fluvial
saltei às embarcações
habitei ilhas sem solidão
aboli o vazio do formigueiro
dedilhei oceanos
ouvi a tempestade:
“é sobre sua falta
de chamas e chuvas”
Aquele som vindo das
Águas: Dentro!
Milagre
Vociferei
Surgira água potável
na lama
no deserto poético
nascera aquela
fonte de versos
Noite, dia amalgamaram
O que era tempo?
Tempo-dentro
o que contava
meus olhos adulteraram
formas: céus, matas
rosas dançavam ondas
ao som das águas
empunhei o arco da minha
íris; fui ao infinito
O mundo mudara de estado
E teus risos vertiam sobre
Angústias como santo graal
em maldições
A couraça do medo aceitou o ópio
E liricamente saltei da lucidez
para o intermediário
Desestabilizei
Convicções rijas
Transgredi sentido
do sentir
Inalei perfume
nos gazes
contaminados.
Incendiei a mim
e aceitei o transe como
condição natural
Pós-espanto
não regressei
à antiga casa
Definitivamente alterada
O corpóreo virou água


 Isa Baccara         

UMA HISTÓRIA MUITO ESTRANHA



Era uma noite chuvosa e fria, estava dirigindo meu carro em uma estrada muito ruim,já estava acostumada a fazer este trajeto todo final de semana, para ser mais preciso nas sextas feiras à noite, quando eu saia da faculdade seguia para casa dos meus pais que ficava a sessenta km distante da faculdade, mas esse era o preço, ou eu enfrentaria essa viagem ou ficaria sozinha na republica dos estudantes todo o final de semana.
Eu nunca fui supersticiosa. Nunca acreditei em nada que não fosse palpável, assombrações nem pensar, sempre achei isso uma tremenda bobagem. Ainda mais na era da informática acreditar em algo assim...,
Pois bem, eu ia tranqüila, rádio ligado, ia ouvindo minhas canções favoritas ate que olhei no relógio e vi que faltavam três minutos para meia noite.
A estrada deserta, a chuva cada vez mais forte, dessa vez me causou um pouco de medomas, eu não tinha outra escolha a não ser, seguir em frente, quando derrepente o carro desgovernou por completo, pois um dos pneus estourou.Andei mais um pouco, consegui controlar o carro. Parei no acostamento
Escuridão total. Meia noite em ponto, um medo imenso se apoderou de mim. Mesmo com o coração aos saltos eu saio do carro com um guarda-chuva que insistia em ser levado pelo vento. Poderia ficar ali um bom tempo que nao veria um carro se quer passar. Alguém teria que trocar o pneu, era eu ou era eu, não tinha escolha. As lágrimas do medo escorria em meu rosto e se misturava com a chuva. Quando abri o porta mala para pegar o estepe senti uma mão pousando em meu ombro... E quase num sussurro ouvi,
__ Eu faço isto pra você!
Naquele instante eu já nao sentia mais nada, nem medo nem susto. Fiquei ali olhando para o meu benfeitor que surgiu, não sei de onde, pois não havia nada por ali, nem um carro parado, mas nada mesmo.
Era bem jovem, habilidoso, em poucos instantes ele trocou o pneu do carro. Foi aí que tive a idéia de pegar na minha mala, uma toalha para ele se enxugar, visto que a chuva não dava trégua, mas surpreendentemente quando voltei com a toalha ele já havia desaparecido. Fiquei perplexa. Olhei ao redor, não via nada. Entrei no meu carro e segui em frente.
Na manhã seguinte, enquanto eu tomava o café da manhã com minha mãe, que fazia questão de preparar sempre com um delicioso bolo de milho, pois ela sabia que eu gostava muito, vimos no noticiário local que um jovem havia se envolvido em um acidente de moto, e qual não foi minha surpresa quando vi que o jovem era o mesmo que me ajudou na estrada. Minha mãe tentando me acalmar, com toda naturalidade me disse;
__ Filha, os anjos estão em todos os lugares!
HELENA DE PAULA !


SÚPLICAS



Moribunda está em seu leito
sobre os lençóis alvos como lírios.
Confundida, sua pele sem vida,
suas dores misturadas às lágrimas
que doíam em minha alma.

Em sussurro sua alma grita
naquele corpo quase sem vida.
Sua boca sussurrava sem forças.
Olhar triste a refletia parecendo criança,
cuja esperança perdeu no tempo
a súplica da sua alma por vida.


Eliza Gregio

LENDAS DA AMAZÔNIA


(folclore brasileiro)

Eu já tinha ouvido falar dos bailes
e das festas naquela aldeia
Era um alvoroço tremendo
As moças se enfeitavam com fitas
Com seus vestidos de chita e todas faceiras
Iam pra vila dançar! Fui conhecer um dia a tal festa
E o que vi jamais vou esquecer
A festa estava animada
era um festival de cores, de muitas músicas e de alegria
todos se divertiam . Menos a Maria.

Ficava sentada num canto.
De vez enquanto olhava na janela!
parecia esperar por alguém.
Maria era a moça mais linda do lugar
Até que lá pelas tantas, ele chegou
Lindo,sorrindo
Com o seu terninho branco, chapéu de panamá
Maria se transformou seu rosto se iluminou .
E ele so tirava ela para dançar.
Dançava e dançava sem parar
Todos nos ficamos paralisados.
Vendo aquele casal a dançar. Mas de repente
Uma vento forte que tirou tudo do lugar.
As luzes se apagaram.
Foi um corre corre danado ninguém entendia nada
Mas quando tudo se acalmou, tudo voltou ao normal
A ventania cessou a luz à piscadela voltou
Só ele que não! Ninguém mais o viu
Do mesmo jeito que chegou partiu
E Maria voltou para seu canto, triste ate a festa acabar....
Diziam alguns que era o Boto... que nas noites de luar
Saia das águas do rio... Ia pra vila dançar...


Helena de Paula

PUTREFAÇÃO



Moscas varejeiras pousam sobre o amor.
Banquete servido na mais pura condescendência.
Originado na abundância e na carência
morto entre o alumbramento e o horror.

Renan Sanves

Dialogando com Paulo Freire:




"Se queres ser universal, canta tua aldeia..." , escreveu Paulo Freire, alhures. Concordo. Mas mas há que se ter mente uma questão de ordem filosófica e antropológica: a aldeia existe somente porque existe o mundo, e o mundo existe porque existem lugares - no sentido de Milton Santos - plurais, diversos em suas culturas. Falam-se, hoje, no planeta terra, mais de 7.000 línguas. E cada língua pode ser falada, com suas variações (dialetos) por várias nações em vários pontos da terra. Precipitados de diásporas, processos coloniais, deslocamentos forçados e coisas do tipo. É nessa relação especular, entre o local e o global que pulsamos! Se eu canto "minha" aldeia, é porque existem outras que não são "minhas", são diferentes, são "outras", outras nações, outros grupos, outros povos, além de diferenças como as de gênero, orientação sexual, etc...que podem levar a formação de "outras" tribos, inclusive as chamadas tribos urbanas. Entre o "eu" e o "outro", o "local" e o global" ocorrem relações dialéticas, num processo sinérgico sem par, sobretudo no mundo atual. É preciso esclarecer que não basta cantar a "minha aldeia" para ser universal. É necessário a consciência da diversidade sociocultural e, portanto, linguística, de classe, de gênero, etc...e, ao cantar a "minha aldeia" ter plena consciência de que ela existe enquanto um precipitado de formas de ser e estar no mundo, múltiplas, diversas, especulares, sinérgicas...E remendaria o texto de nosso saudoso educador: "Se queres ser universal, canta tua aldeia, sem que te olvides da tensa relação entre o local e global! Sem deixar de sentir-te apenas um, entre tantos "outros". E que há diferenças, mas há também semelhanças, recorrências onde dormitam, quiças, os sentimentos atávicos. 

Edir Pina de Barros

outro dia trarei o Régio...

De Miguel Torga

Pórtico

Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
Do dia ganho.
Não por haver chegado,
Mas ter acrescentado
Um palmo de ilusão ao meu tamanho.

Um espantalho
Carne de palha rasgada
Tem mais carinho que eu
Pássaros pousam em seu ombro
O vento cochicha ao seu ouvido
Recebe aceno de crianças
Piscadelas belicosas da lua

Um espantalho
Mãos escapando pelas mangas
Não sofre esta angústia grave
A ausência das tuas mãos grandes
Enlaçando as minhas mãos em
Carne, osso, gozo e esperança


Olhos que brilham
na moldura da janela -

A lua cheia

Alvaro Posselt  

Amor Líquido


A alma seca
Recebera aquela
voz – água- corrente
de repente
vida Tornou-se líquida
tornei-me líquida
Espasmos, pensara;
água penetrara
pele seca!
Germinei noite a noite
Desejara tragar-te
Num gole só
Sem verter
Uma gota sequer
peito cru,
Senão agreste
Inchado a golpes
De pedra, enterrado
em terra rachada
Fora inundado
Inundação seguida
de contínuo desafogar
rios reprimidos
Desoprimindo águas
A vida jorrava
Eu jorrava
Cores jorravam
Sons jorravam!
O amor transformara
Sólido em líquido
Não recorria
aos petrificados:
Escorria!
Eu,
Agora alma fluvial
Saltei para as embarcações
Habitei ilhas sem solidão
Aboli o vazio do formigueiro
Dedilhei oceanos
Ouvi a tempestade:
“é sobre sua falta
de chamas e chuvas”
E um som vindo das
Águas: Dentro!
Milagre!
Vociferei
Surgira água potável
No meio da lama
No deserto poético
Nascera a fonte
Contínua de versos
Noite, dia amalgamaram
O que era o tempo?
Tempo-dentro
o que contava
os olhos alteravam
Formas: céus, florestas
rosas dançavam ao som
das águas
empunhei o arco da minha íris
imagens feitas de ondas
O mundo mudara de estado
Teus risos vertiam sobre
Minha angústia tal
Cálice sagrado
Sobre maldições
Couraça era vinho tinto
E liricamente me embriaguei
De loucura e lucidez
Desestabilizei
Convicções rijas
Transgredi sentido
Do sentir
Inalei perfume
ora gazes
contaminados.
Incendiei a mim
aceitei o transe como
Condição natural
Depois do espanto
jamais regressarei
Para a antiga casa
Fui definitivamente alterada
De sólida para líquida


 Isa Baccara        

instante



hoje
o dia que pode
ser
hoje
o dia que ousa
ser
hoje
o dia que pousa...

hoje
o dia que deve
ser
hoje
um dia à-toa:
ter
hoje
o dia que voa!

 Adriano Nunes 


O vidro índigo da relva

  
Qual é a real -
Esta garrafa de vidro índigo na relva,
Ou o banco com vaso de gerânios, o
colchão
manchado e o macacão lavado secando ao
sol?
Qual destes contém na verdade o mundo?

Nenhum dos dois, nem os dois juntos.
____________________________________

THE INDIGO GLASS IN THE GRASS (Wallace Stevens)

Which is real -
This bottle of indigo glass in the grass,
Or the bench with the pot of geraniums, the
[stained mattress and the washed overalls
[drying in the sun?
Which of these truly contains the world?


Neither one, nor the two together.



 Régis Bonvicino

Para Escrever um Soneto ( Luta de Esgrima )



© Nathan de Castro

Conta até seis e bate o pé no chão,
quando chegar a dez prepara a rima...
A primeira batalha está na mão
e a mágica do sonho se aproxima.

Deixa que flua a conta da emoção,
sem ela o peito esfria e desanima...
O segundo combate é o da paixão
e sabe a solidão de quem esgrima.

A luta exige pulso e coordenados
movimentos perfeitos nos espaços...
Um toque na cabeça, tronco ou braços,

pode levar-te ao mar dos derrotados.
Mas se vencer, amigo, comemora
e, te prepara: - um louco em ti se aflora!



Para Escrever um Poema



© Nathan de Castro

Para escrever um poema é preciso ousar e navegar nos delírios dos olhares banhados por oceanos, rios, florestas e precipícios.
E é preciso andar de mãos dadas com a magia da Natureza.
Para escrever um poema é preciso alguns pontos de interrogação e algumas reticências...
E é preciso acreditar nas palavras que se apresentam, inesperadamente. Nem tente buscar por sinônimos!
Para escrever um poema é necessário estar de bem com a luz.
Não importa: luz do dia, luz de estrelas, luz de velas, luz do pensamento... Todas têm seus encantos!
Algumas taças de vinho fazem bem para os versos.
Os poemas gostam da embriaguez das letras e da lucidez dos bêbados. Eles enxergam os momentos com o olhar perdido. Alguns diriam: __ Com o olhar sem vida. Mas na morte é onde o poema encontra a morada preferida.
Para escrever um poema é preciso que o poeta vista o traje da loucura e saiba que a poesia é a essência dos quatro elementos.
Ela alimenta a flor na alma do leitor, sendo imprescindível, para que eles sintam os caminhos do verbo Amar.
Finalmente, leia o poema em voz alta, sinta a sua sonoridade,o seu perfume e pergunte: __ Posso colocar-lhe o ponto final?


O POETA




o poeta
um dedo duro
do real?

deve meter
o dedo em tudo?

primeira vítima
a verdade

o real
a realidade?

o poeta
um cara cheio de dedos?

um rival
do real?

deve tocar
o dedo na ferida?



 RÉGIS BONVICINO

Travessia

O lar

do passarinho

é

o ar

não

é


o ninho.

De Braulio Tavares

DEUS SORRINDO NA VARANDA



O quintal de Deus é o céu.

Um paraíso em uma ilha.

Alcançaremos quando formos náufragos.

Aguaçal encoberto de dor,

nascituro rompendo em harmonia

a eternidade - Deus sorrindo na varanda.

BÁRBARA LIA



Palhaço



© Nathan de Castro

De tanto amar, o sol desenha a cada dia
uma nova paisagem verde no horizonte,
e a terra, agradecida, bebe da poesia,
mas à noite se esquece e fecha a velha fonte.

A inspiração solar repete o juramento,
não perde tempo e acende a luz noutro quadrante,
ataca no oriente, enquanto atiça o vento
com explosões solares — versos de um amante!

Meu caro amigo, faze como o sol: insiste,
e queima essa paixão na ponta da caneta,
revela o lado oculto e a capa da revista.

Se for loucura amar assim, oh! meu poeta,
então és louco, e o louco em ti é o meu artista:
palhaço da loucura azul que me completa.


Redivivo ser primevo




Por oportunos, ou
Inoportunos, chão

Suave sopro, atmosfera
Enciclopédia
Café amargo aos que
Apreciam

Idioma, tão

Dominando dicionários
Diversão, senão
Cálida recepção, elites
De ontem
Que hoje não.

Nossos espaços, nossos
Laços escassos, traços
Psicanálise
E pão.

Vertente "underground"

Água purificada
Noites dos argumentos
Convence a quem
Quer por ser julgada

Da exterioridade quero nada
Da interioridade expurgo e lava

Na metáfora me banho
Como arranho o violão
Em busca da canção
Que sonho e,
Tristonho, ou
Enfadonho, reponho
O todo em seu lugar

Envieso a adulação
Sou avesso a olhares

Não estou a venda

Ao preço do coração.

ACM

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Hoje é o dia do amigo,
por alguém foi inventado,
ele quis todos consigo,
não deixou ninguém de lado.
-
josé marins


No túmulo


Hoje vim para enterrar
tantos anos, dúvidas
tristezas a me sufocar.
Mas hoje tudo, tudo aqui ficará
neste túmulo, que foi difícil encarar.
O céu nublado, o vento frio, parecem
esfriar minhas emoções,
Minha alma angustiada perambula
por entre questões.
Minha alma machucada é um borrão
na imensidão.
Sou um nada sem seu amor no coração.

As cortinas da vida para ti findaram
e para mim, sem piedade, se fecharam.
Perdi o meu chão,
Foram dez anos de ilusão.
Amor sem garras, abriu os braços,
deixou-me ir.
Me deu abrigo, construiu laços
para tão logo partir.

Hoje, vim para lhe enterrar
tantos anos, dúvidas,
tristezas a me sufocar.
Mas hoje tudo, tudo aqui ficará,
neste túmulo que foi dificil encarar.


 Lorença Jaqueline           

Os ramos das árvores


Agitam-se no vento que os abraça,
No seu voo invisível;
Gaivotas esvoaçam,
Na busca do seu mar;
Crianças que brincam, em algazarra,
Skates deslizam em acrobacias,
Em lutas enfrentadas com as rampas
De madeira rasgada pelos atritos;
Gemer de rodas ao castigo infligido;
Aves que chilreiam,
Nas árvores ansiosas por sossego,
Que o vento tarda em lhes conceder;
E os skaters correm vertiginosamente,
Cruzando-se com as trotinetas,
Em perigosas e arrojadas manobras;
É uma tarde radical no parque camarário,
Quedas desamparadas pelas atitudes
De valente exibição,
Que terminam em mazelas
E dores disfarçadas;
É a juventude na sua pujança.

José Carlos Moutinho


Casamento


À porta da igreja
o mendigo da rua
o casal de monstros
seu sorriso salvo

Com reflexo os vidros
realçam o céu
onde cruza avião
rumo à capital

Próxima dali
moral sem dentes
chega ao orgasmo
cabalisticamente

O mendigo pára
de olhar outros
que se dão conta
não ser meio-dia


Sentado no parque, observo…


Ari Marinho Bueno         

INEXTRINCÁVEL

Projetarei mentes avançadas
Futurosas.
Precoces cérebros dementes.
Vindouras eras desejadas
Harmoniosas.
Inexistirão pensamentos incoerentes.

Anularei sádicas fêmeas indignas
Não se tornarão primíparas malignas.

Injeto conceitos
Na inobservância de preceitos.
Despido de preconceitos
Encubro os defeitos
Descartando os sem efeitos.

Procurarei sequazes inteligentes
Mentes de cérebros frenopatas
Insânias modernas e dormentes
E assim, reabilitarei os doentes.

Seremos seres perenes e insólitos
Profanaremos prófugos serenos e usuais.

Inventaremos no espaço sem tempo
Um diminuto tal sentimento,...
... Corrompido dos tempos.
Astronauta, afrontando o firmamento.

A gravidez dessa hera
Reforma-nos em fera
Daí toda amizade zera
Será o que tua ira gera.
Vagamos,... Numa vadia era.

Imbele inumano execrável
Pulsará na essência
De teu tormento.
E nessa frágua forjará
Teu caráter diabento.

Nascerá um neto do feto, o pré-feto
Sadomasoquista abrindo barreiras
Transformista derrubando fronteiras.
Desinfeto o são infectos, vindo do reto.

Um dia, no dia, o dia acordará sem alvorecer
À noite, um dia, serão dias de noites a convalescer.

E desse nada em diante
O que há de humano
Rebrotará cambaleante.

Perdurará,...
Porem com o tempo
Novamente...
Tornaremos-nos, ufano.

E de implante a re-implante
A experiência copulante
Tornar-se-á estressante.

Revolverá...
Na terra o tempo.
Estupidamente
Morrerá desumano.

Na fumada da noite o vil lia
E bebia a maconha e a coca tragada.
Na baforada do açoite de mil guia
Erguia-me na cachaça consagrada.

Num mar de rios de fogo
Estrelará, muito até tonteante... , e
... Surgirás da fuligem do lodo.
E nesse hall, o amor virá humanante.

De um chip adiante.

Francisco De Arruda Bezerra      



Sol repentino -
Vai embora carrancudo

o vendedor de guarda-chuva

Alvaro Posselt  

Diário de um pobre

  
06 horas.
Eu acordo assustado,
o cachorro late pra todo lado.
Levanto, estou faminto,
a geladeira é meu caminho,
Mas que pena está vazia.

Às seis e trinta tô no banho,
o sabão é meu perfume.
Água fria e eu canto Bartô Galeno,
e me olho no espelho,
tá faltando dente no sorriso.

Sete horas eu ligo o carro
que está meio quebrado.
A bateria não funciona
e eu chamo a patroa
pra me ajudar a empurrar.

Ele pega meio no tranco,
já tô na fila do banco.
Cansado, esperando.
Pois o cheque voltou
sem eu mandar.

11 horas chego no trabalho,
o chefe olha meio de lado,
não se conforma com meu atraso
e diz que vai no salário descontar.

Tô na hora do almoço,
que é pedaço de pescoço,
engasgado e quase rouco,
mas preciso acostumar.

17 horas.
É fim de expediente.
Entro no carro muito quente,
ele quebra de repente
e ninguém quer empurrar.

Aproveito a ladeira,
ligo o carro sem besteira,
vou com o brega na cabeça
e o guarda quer me multar.

20 horas.
Chego em casa acabado,
a mulher mostra o sapato
que está descosturado,
pois tá velho de lascar.

O menino tá chorando,
pois o leite tá acabando,
e eu pergunto: até quando?
Será que eu vou suportar?

Ligo a televisão,
pra assistir o jornalzão
e quem sabe a solução
podem me apresentar.

A manchete é terrivel,
subiu o gás e o combustível
e o leite do menino
que continua a esperniar.

22 horas.
Vou pra cama pra dormir,
e a mulher diz: peraí!
tem coisa boa para ti
que preciso te contar.

Ela me fala de repente:
Mamãe vem morar com a gente!
Assustado eu pergunto: É pra sempre?
Você quer me assassinar.

E o dia tá terminando,
e meu diário vou parando,
pois a tinta da caneta tá acabando,
e eu preciso descansar.


(Nelson Rodrigues de Barros)
pode cortar como faca
ou ferir como espinho
que seja proibido
aos olhos d quem seja
eu quero tudo que sangra
nem que seja em angra
como energia nuclear
ou passaporte pro futuro
não quero porto seguro
quero morrer no mar

arturgomes

CIDADE VAZIA


Na sombria cidadela da cidade
Os sortilégios ecoam dos pavimentos
Trocam-se favores com numerário alheio
Votam leis, sotopondo a população
Que malicia
Que milícia
Nem aparentam rubídez.

Uma arena, romana, erguerá na cidade
Aos leões sortearemos os de todos os pavimentos
Aprenderam a não surrupiar o alheio
Reputaremos nova população
Sem malicia
Sem milícia
Prostraremos sua rubídez.

De que adianta bela cidadela construir
Habita-la com comandantes rufiões.
Laborar cinco meses do ano
Para seus rotundos bolsos saciar.
O situacionismo há de perecer.

Cidades-modelo irão construir
Juizes trancafiaram rufiões
Pagaremos o justo, todos os meses do ano
Ilícitos ganhos não irão mais te saciar.
De um modo ou de outro, vão perecer.

Era uma vez,..., cidade vazia
Um dia,... , verdadeiras federações.

Francisco De Arruda Bezerra      



O Telefone

(R.B. Côvo)

- Alô! Alô!
Pausa. Suspiro. Nervoso miudinho.
- Alô! Alô!
Repetição. Esse “alô” uma e outra vez repetido, toda a repetição é uma perda de tempo, angustiante, incômoda, desnecessária. Radical, eu? Não! Um amor que se repete, por exemplo, é um amor desprovido de magia. E numa dama, a de todas a mais bela, o segundo gesto não resulta tão gracioso quanto o primeiro. O beijo, então, devo pô-lo a salvo de tais considerações. Todo mundo lembra o primeiro beijo, já o segundo quem o lembra?
Cinco dias. Em cinco dias as coisas se repetem. Acordo às sete da manhã, tomo um duche, escovo os dentes, visto aquela fardinha ridícula à escuteiro, corro para a parada, pego o ônibus até ao trabalho...
Começou segunda-feira, vinte de junho, cinco horas da manhã tocou o telefone. Levantei-me rápido, assustado, “pode ser alguma coisa com meus pais, eles são velhos, doentes”, atendo, “alô, alô”, e nada, ninguém fala, silêncio absoluto, respiração leve. Insisto mais um pouco até alguém desligar do outro lado.
Hoje é sexta. São dez da manhã. Não fui trabalhar. Terça, quarta, quinta, sexta, o telefone teimou em acordar-me. Brincadeira chata, de mau gosto, recuso-me a acreditar que algures no mundo existe alguém tão imbecil que se lembre de me aborrecer todos os dias às cinco da manhã. E, por que eu? Não poderia ter sido outro o escolhido? Eu nunca quis, Deus sabe, ser o escolhido, o eleito. Se me puderem deixar sozinho comigo mesmo sou feliz.
Trim! Triiim!

Hesito. Ainda fico meio na dúvida entre levantar-me ou não levantar. Nunca ninguém me liga e estou tão bem enrolado nos meus cobertores. No máximo será minha chefe reclamando da minha demora. Chefe é como telefone, chato, repetitivo, fastidioso. E hoje é um dia diferente, daqueles que poucas ou nenhumas vezes se repetem. Hoje não vou. Para todos os efeitos estou doente.
“O poeta cria, fora do mundo que existe, o que deveria existir. Eu tenho direito a querer ver uma flor que anda ou um rebanho de ovelhas atravessando o arco-íris, e quem quiser me negar esse direito ou limitar o campo de minhas visões deve ser considerado um simples inepto.” (Vicente Huidobro).

"Um 'angelus silesius' mira o olho-d'água"


Por entre avenca e feto e taquarapoca
No seio-limo-musgo da mata ciliar
Corre arregalada a crua matéria-prima essencial
O vero olho da terra é o cristal d’água
E não há no reino mineral
Nenhum poder de pedra que estanque
O jorro das gotinhas
Rasgando as entranhas da terra
Sedentas por ver o sol
Sedentas por ver o sol
Secas por vê-lo
Dourar o campo, o alecrim e a mata
Dourar o vale, a garganta e a serra.

Córnea, cristalino.
Pupila, íris, pálpebra, retina.

Ai, se este olho-d’água
Filtrasse a sentina, a latrina
Do mundo e da minha alma
E o nojo e a náusea e o lodo e a lama lavasse
E o "Eco" pagão aos meus ouvidos recordasse
Que o olho por onde eu vejo Deus
É o mesmo olho por onde "Ele" me vê.


De Waly Salomão

OS SEMEADORES


(Século XVI)

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,
O doce fruto e a flor,
Acaso esquecereis os ásperos e amargos
Tempos de semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;
Contudo, esses heróis
Souberam resistir na afanosa porfia
Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,
E a fé, e as orações
Fizeram transformar a terra pobre em rica
E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,
O frio, a descalcez,
O morrer cada dia uma morte sem nome,
O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,
Como se fora réu
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime
De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!
Venceste-la; e podeis
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
Vivereis, vivereis!




 De Machado de Assis

O filósofo


Quando penso nos tempos de outrora
Meu olhar se perde em desventura
Triste vejo o vago desta hora
Sou um lago sereno de amargura.

Minha boca não sabe de outro beijo
Sem desejo ativo morto - vivo
Sou um vulto pálido doutro tempo
Que saiu de algum livro asombrativo

E se choro as lágrimas são de plástico
Quando batem no chão ninguem escuta
Sou filósofo, não sei de metafísica
Alma tísica à espera da cicuta.


Do quase possível.

A ideia de um mundo quase possível
onde as flores falassem,
e que as mulheres fossem só perfume.

No quase possível os homens não falariam de paz,
não! Apenas viveriam em paz... Sem ditador
sem guerra ou discidentes.

A praça seria dos namorados
e não dos meninos abandonados.

Em um mundo quase possível
poetas não morreriam,
se encantariam...


 Evan Do Carmo 

Grafito


neste lugar solitário
o homem toda manhã
tem o porte estatuário
de um pensador de rodin

neste lugar solitário
extravassa sem sursis
como num confessionário
o mais íntimo de si

neste lugar solitário
arúspice desentranha
o aflito vocabulário
de suas próprias entranhas

neste lugar solitário
faz a conta mais doída:
em lançamentos diários
a soma de sua vida


José Paulo Paes

INQUISIÇÃO


Aos doentes, a doença,
a condenação silenciosa
dos olhares – e uma marca
a ser carregada para sempre.

Aos normais, o álibi,
a absolvição antecipada,
a isenção impiedosa.
A vida no conforto da sombra
dos que trazem a ferida aberta
e uma dor que deve ser sentida
em segredo.

O dedo que aponta a loucura
de forma certeira e impiedosa
é uma arma cruel a defender
a normalidade do seu dono.

Enquanto existirem loucos no mundo
os covardes poderão respirar aliviados.


 Orlando Bona Filho         

O sal da língua



Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Ensaio sobre uma peça inacabada


"...Acabo de chegar de um lugar indeterminado; não o sei localizar; fica algures na minha memória, já um pouco esbatida pelo tempo; gastei muito do meu tempo a lembrar o que não deveria ter sido recordado. Mas o arrependimento não trás nada de novo, apenas revolve o velho e não deixámos de ser o que somos, apenas almas errantes neste mundo de contrastes e de negações. Somos apenas e tão somente os "dejectos" dum mundo imperfeito. Não nos foi dada a possibilidade de esboçar a nossa própria vida e assim temos de nos contentar com os constantes ensaios que fazem de nós, indeterminando a solução final.Perdemo-nos na amálgama do tempo e da insanidade.Já não somos quem queremos ser.Somos apenas o que nos "dão" para ser.Permitem-nos viver de memórias e de factos que de novo se transformam em lembranças.Mas, lembrar para quê? Para sofrer? Para verificar que afinal de contas de nada serviu o esboço que de mim fizeram em constantes ensaios que a nada me levaram? Apenas à negação, só me levaram à negação.Não sei quem sou. Talvez nem queira saber: Não foi para isso que aqui vim; vim a este mundo para ser feliz, disseram-me um dia; e eu, parvo, acreditei.Vivi correndo nesse sentido; esbocei sorrisos e ensaiei risadas. Tropecei, caí mas de novo me levantava. O horizonte estava sempre perto e me bastava estender a mão; a ajuda nunca me era negada; acreditei que o esboço que de mim fizeram em alguma coisa de bom se haveria de tornar, um dia, quando não sabia, mas haveria de me realizar.Engano. Puro engano. Quando dei por mim estava caído, só, perdido, fendido em mil pedaços de mim, dorido de dores que não imaginava existirem.Mesmo assim olhava em frente na expectativa de que o esboço que fizeram de mim, depois de tantos e tantos ensaios, me permitissem olhar e sorrir de novo. Fiz isso muitas vezes. E havia sempre uma mão, ali, expectante, sorrindo para mim (engano). Para que foi que me sorriram? Porque me enganaram? Porque me disseram que sim? Porque razão me arrastei até aqui?Porquê?Que ganhei eu?Derrota após derrota?Claro que ganhei muitas batalhas, claro que sorri muitas vezes, claro que dei gritos de espanto e de prazer, claro que sim, mas, para quê? Para chegar a este fim?Para verificar que tudo o que vivi foi uma dramatização de mais uma história igual a tantas outras histórias de amor e sofrimento?Foi para isso?Foi para isso que me trouxeram até aqui?Foi para verificar que "isso" não existe? E, o que é o "isso"? O "isso" é um sarcástico riso dum engano simples mas preciso; dizem-nos: Vai e sê feliz, foi para isso que aqui vieste. E eu vim, olhando, sorrindo, esboçando e ensaiando o que poderia vir a ser e a ter: um amor, o amor!Amei e fui amado.Quis ficar pela simples razão de ter gostado. Então amei e fui novamente amado e numa infindável sequência de vidas eu percebi que estava a ser traido pelo esboço que fizeram de mim; o ensaio não tinha tido ensaio-geral; o pano subira para a representação da vida e eu não sabia o papel.Destruiram-me, logo ali, logo à partida.Negaram-me a possibilidade de estudar melhor as deixas e as palavras, os tregeitos e a forma de colocar o corpo no palco da vida; o esboço havia sido mal concebido; o ensaio não havia servido de nada.

Não havia ponto.

Não havia nada. No entanto, pensei que havia tudo e de nada me servi a não ser da minha inadaptação ao papel. Fui um mau actor

As lágrimas caiem-me agora e ninguém as vê; só eu as sinto aqui ao meu redor; os olhos se me toldam numa profunda mágoa e a tristeza me invade.

Quis amar e ser amado.

E, sou-o!

Para quê?

Onde é que ele está? Aqui, ao meu lado? Ali, depois daquela esquina? Depois, um pouco mais para além do horizonte? Ou a seguir àquele arco-íris colorido de vida mas que nada mais me traz para além dessas mesmas cores.

Isto não é um grito.

É para dizer que não me contratem mais; não há esboço e ensaio que cheguem para me reconstruirem de novo; a "argamassa" foi totalmente utilizada quando havia um sorriso, quando havia riso e olhos brilhantes.

Já não sei o papel de cor e já não consigo ler.

No entanto, o amor não precisa de esboços nem de ensaios; no entanto, o amor não precisa de saber o papel, nem de ponto, nem de palco; o amor precisa de actor, de alguém que grite que está vivo, que ainda não perdeu a única "coisa" que tem para dar e isso está ainda dentro do meu coração, ainda pulsa e me diz que é, que existe, que sente, que vibra.
Grito, no meio de uma lágrima escorrendo sobre um sorriso, que por muitos esboços e ensaios, eu ainda o sinto e que esse amor (latente, vivo) não acabará nunca, morrerá comigo, levá-lo-ei para onde eu for, será presa de mim mas não estará preso em mim, será livre de ser o que tiver de ser, será o advir..."  
      

Joaquim Nogueira         

Ensaio sobre a solidão


“…depressa me canso de mim… olho à minha volta e só vejo recordações… uma terna claridade invade o meu quarto e me rodeia de mansinho… já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio!… nunca soube o porquê de tal evento… é uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio… algo que nada traz a não ser paz… mas trazê-la já é bom… e é nesses momentos que me sinto só… e sabem porquê?… porque não tenho com quem partilhar esse momento!… algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão… dizer a alguém: “…Vês?… Estás a ouvir?… A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo… Entendes?…”… mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado… engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio… já somos três… estendo-me então no leito dessa luz e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade… nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente… nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só… estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros… passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito… sinto o seu respirar lento e compassado… é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração… e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado… no entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado… é um abraço puro mas forte… ingénuo mas apaixonado… é apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer… porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolvem, o silêncio se aperta contra mim e me possui… penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante… o que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe… penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta… o bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim… o tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade… é um estar sem vida, sem morte e sem idade… apenas habita em mim numa eterna cumplicidade… respiro o espaço que me rodeia… e a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia… já tenho mais uma companhia… o doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho… adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade…”
Joaquim Nogueira



Ensaio sobre a loucura



Primeira carta:

“…acordei por volta das 3 e 15 da manhã… sim, era isso… olhei para o relógio da mesinha de cabeceira e marcava 3 e 15… é um relógio daqueles de ponteiros luminosos… Olhei para o tecto sem saber porque razão acordara, mas lembro-me que talvez tenha ouvido a porta de um carro, lá fora, a bater ao fechar-se… olhei de seguida para os buraquinhos das frinchas da persiana da janela e divisei a luz da noite… a rua tem candeeiros e vê-se essa luz ainda que difusa… Senti o corpo morno e passei a minha mão pelos meus seios acariciando os bicos do peito… Deixei a minha mão descer pela barriga até sentir o meu sexo e desejei ter-te ali comigo… a minha mão acariciou os pelos púbicos e lentamente introduzi um dedo na minha vagina… Deixei-me estar assim durante uns momentos e lembrei-me de ti… lembrei-me de todos os momentos que te tive e que a meu lado te senti… Sabes, quando me abraçavas e me sentia pequenina, dessa forma mágica que tens de me abraçar… quando me beijavas e me sentia desfalecer ao sentir a humidade dos teus lábios… sabes, não sabes?… Sei que sim… Lembras-te daquele dia em que nos encontramos pela primeira vez?… O dia em que nos olhamos e os nossos corações bateram?… Aquele dia mágico que marcou o resto dos outros nossos dias?… Acordei sem saber por razão acordava mas penso que a saudade marca o sonho e, se calhar, estaria a sonhar contigo… Lembras-te daquele dia em que estavas sentado no sofá da nossa sala e me ajoelhei a teus pés?… Lembras-te de termos feito amor na mesa da cozinha?… Lembras-te daquelas férias que tivemos na montanha e lembras-te de certeza de termos feito amor deitados naquele chão branco de neve… Lembras-te de, no fim, teres lavado o teu sexo com a fria neve que estava ao nosso lado?… Lembras-te como ele ficou pequenino por causa do frio?… Lembras-te como nos rimos às gargalhadas?… E daquele dia que fizemos amor no carro?… A meio deste um grito porque te aleijaste numa perna no travão de mão?… Sim, porque não te haverias de lembrar, se eu me lembro tão bem… e daquela outra vez na praia, escondidos numa duna, quando eu fiquei cheia de areia… Acordei às 3 e 15 e já são 3 e 40!… 25 Minutos a pensar nisto… sinto-te em mim, meu amor e não estás aqui presente… mas sinto-te… sei que sou eu que me acaricio mas é como se fosses tu… sinto como se fossem as tuas mãos, o teu corpo quente, o teu hálito a maçã que costumavas comer a toda a hora… eras doido por maçãs… nunca soube porquê… nunca considerei isso importante mas era importante para ti, não era?… Os teus beijos quentes e húmidos, num saltitar constante entre os meus mamilos e a minha boca… Como beijavas tão bem… mas sei que mesmo que beijasses mal, para mim era sempre bom, doce, quente, por vezes abrasador… como eu costumava dizer que acendias em mim o fogo da lareira sempre acesa… eu sei que fui sempre “louca” por ti mas tu sempre gostaste de mim assim… eu sei que sim… eu sentia que tu gostavas de mim assim… tu também eras louco, sabias?… Sim, a tua loucura me incendiava e quando nos rebolávamos na cama parecia que tudo se partia e a cama chiava… como nós nos riamos disso… coisas giras e loucas, não eram?… Meu bem, como me lembro de ti assim?… Porque acordei eu a pensar em ti?… Porque é que ainda penso em ti ou porque é que estou sempre a pensar em ti?… Sabes que não há um único momento da minha vida que não pense em ti?… Eu sei, eu sei que dizem que estou louca… mas eles não sabem que já não estou louca, já estive, sim já estive louca por ti… agora já não estou… estou feliz, triste mas feliz e tu sabes porquê, não sabes?… Sabes, eu sei que sabes… Já são 4 da manhã… Acho que vou dormir um pouco… Penso que vou sonhar contigo e depois… depois voltar a acordar para pensar mais uma vez nos nossos dias felizes, nos dias que passamos juntos, naqueles dias em que a loucura era permitida e nada mais interessava… até ao dia em que te foste… Nunca soube porquê, porque me deixaste, porque não me quiseste mais… porquê, meu amor?… O sono está a regressar… sabes, deram-me mais uma injecção e vou ter de dormir, sim?… Eu vou dormir mais um pouco, meu amor… mais um pouco… mais um pouco… como ainda te amo… sim, serei sempre a tua Maria, meu amor… tua para sempre… para sempre…”

a tua Maria

Segunda carta:

“…continuo a acordar todas as noites… não há forma de o evitar… a tua ausência incendeia-me os sentidos… a tua falta provoca-me esta ânsia de te sentir presente… sofro neste sofrimento sofrido de dor e solidão… já não sei quem sou… também não interessa… lembras-te da última carta que te escrevi… sim, daquela em que acordei às 3 e 15 da manhã?… Essa…sim, quando senti a tua falta e me acariciei como se fosses tu que o estivesses a fazer… oh meu amor, como sinto a tua falta!… Não, não sei que horas são… até o relógio me tiraram deste sepulcro… olho pelas frinchas da janela e vejo luar… não sei a quantos estamos… mas isso tem importância?… Que valor terá o dia em que me encontro se não te encontro num só momento?… Desespero neste tormento de sentir a tua falta e não te sentir a presença… Como poderia sentir se tudo o que sinto é dor?… Todos os nossos momentos me passam pela memória e esta lembrança chora, chora como se fosse ela a minha própria alma e eu não existisse… Aqui onde estou não me lembro do que sou, só me lembro de ti e de todos os momentos em que estive contigo e contigo vivi… Sim, agora não vivo, apenas recordo… Dizem que recordar é viver… oh meu amor como pode ser viver se cada vez que me lembro, sinto que estou a morrer… as tuas mãos estão aqui no meu peito apertando-me os seios como tu tanto gostavas de fazer… a tua boca na minha boca e a humidade da tua língua na minha língua… o doce beijo nos meus mamilos e como as tuas mãos me penetravam com doçura e força ao mesmo tempo… oh meu bem, como te amo tanto… como te quero tanto… oh meu bem que lágrimas tão amargas estas que broto a todo o momento… olha, devem ser 4 da manhã… vem aí a enfermeira com a injecção do costume… continuam a dizer que esta minha loucura não tem cura… eu sei que não tem, como poderia ter?… Como me posso curar da tua ausência?… Como posso viver nesta minha morte?… Não sei meu amor, não sei… A enfermeira me aconchegou os cobertores… sabes, está frio e sinto frio dentro de mim… já não consigo falar… apenas olho no vazio… neste vazio que me preenche… Mas não preciso de mais nada, basta-me a lembrança dos momentos que vivemos… basta-me esta dor que vive comigo… bastam-me estas lágrimas… o meu pão de cada dia… o meu alimento neste vazio… sinto os olhos pesados… sei que vou dormir mais um pouco mas estou feliz pois vou dormir contigo nos meus braços, nestes braços que não te sentindo te lembram, te tocam, te apertam contra mim… lembras-te de quando adormecíamos assim?… Como era bom acordar a meio da noite com os braços dormentes e sentir o calor do teu corpo abrasar este meu ser que de tanto te querer te perdeu… oh meu amor, como te amo… como sinto a tua ausência… vou dormir… até mais logo… lembra-te de mim como me lembro de ti… um resto de noite feliz, meu amor…”

a tua Maria

Última carta:

“…já é habitual acordar a meio da noite… é sempre naqueles intervalos entre o efeito das drogas que me dão… aproveitei sempre esses momentos para te escrever, meu amor… porém, estou convencida que esta será a minha última carta e, sinceramente, não sei o que te quero dizer… meu amado, meu bem, meu doce, meu tudo, meu ser, minha alma, minha única razão de existir: não sei sequer se irás ler estas minhas palavras… como é hábito e tu sabes, devem ser 4 da manhã… está na hora de mais uma dose e a enfermeira deve estar a chegar… restam-me poucos minutos e estas serão as últimas que vou poder te escrever… as outras cartas que te enviei, onde recordava tudo o que de belo e bom tivemos durante os tempos em que estivemos juntos, também não sei se foram parar às tuas doces mãos, (tão doces de todas as carícias que me levaram ao êxtase e ao delírio, tão suaves que eram, meu amor, tão doces que as sentia em mim como se minhas fossem, como se me pertencessem desde sempre)… não sei se te disseram como estou, não sei se sabes no que me tornei… mas, há cerca de meia dúzia de dias (como se contam os dias aqui?… não me perguntes porque não te sei responder…) ouvi-os dizer que já não havia nada a fazer e que a única forma era o isolamento total e final… vão, pois, privar-me da única coisa que tinha vinda do exterior… a luz da lua nas noites frias porque sem ti e da luz do sol gelado porque não a teu lado… tiram-me também o bater das gotas da chuva que me faziam contar os segundos em que olhava o tecto e recordava tudo o que fomos… vão, portanto, enviar-me para longe de mim mesma, encharcar-me de drogas e mais drogas para que eu não possa reagir e gritar como tenho gritado estes últimos anos… gritado por ti, meu amor, gritado pela tua ausência, pelo amor que tivemos, por tudo de bom que passámos, por tudo o que está gravado na minha alma, na minha pele, no meu ser, na minha totalidade… como dizer-lhes que não estou louca, como dizer-lhes que o que sou é apenas o resultado do que fomos… como dizer-lhes que nada tenho porque apenas e só tu me faltas e que nada mais desejo que não seja o que um dia fomos… queria, antes de ir, antes (eu sei) de morrer de falta de ti, olhar-te apenas mais uma vez; fixar teus olhos e sorrir no teu sorriso… tocar teus lábios e tornar-me num beijo… sentir tuas mãos nos meus seios e ser eu mesma esse toque… sentir teu sexo me penetrar e ser eu mesma a penetração… meu amor, apenas uma última vez e eu ficaria curada… mas tenho consciência (sabes aquela consciência que nos resta no intervalo curto entre as injecções) de que tal não vai acontecer e sei que o meu túmulo estará naquelas 4 paredes sem grades porque sem janelas; já tinha ouvido falar delas quando cá entrei… ouço passos; deve ser a enfermeira do turno da noite… deve ser a próxima toma de mais um calmante… o habitual, a norma, o gesto, o ritual, a morte em ensaio… sei que já não vou ter mais tempo… o tempo terminou… vou levar comigo todas as recordações que me restam porque nada mais tenho nem nada mais quero: quero apenas que não me tirem a recordação do som do teu riso, o sabor do teu toque, o brilho do teu olhar… isso eles não me conseguem tirar… é isso o que vou levar comigo… quando partir para sempre deste corpo físico que já nada sente, irás dentro da minha alma e serei sempre feliz para onde quer que eu vá, tu estarás lá… eu sei, meu amor, eu sei… me despeço para todo o sempre… deixo-te a minha paz, a paz que obtive na loucura do nosso amor, a paz que me toca ao de leve enquanto sonho contigo… nada mais resta… perdoa-me por te ter amado tanto… perdoa-me por não conseguir deixar de te amar… perdoa-me por te levar comigo no meu coração… adeus, meu amor…”

a tua Maria

JOAQUIM NOGUEIRA 


Caos



Velhos caminhos por florir,
Memórias vividas e esquecidas,
Montanhas surdas aos lamentos,
Gritos estrangulados, sem som,
Peitos doridos pelas mágoas,
Amores controversos e belicosos,
Tempestades de desalentos,
Chuvas secas pelas desilusões,
Estrelas sem brilho, escurecidas por desencantos!
Rios congelados por águas paradas da intriga,
Gente que corre, sem saber para onde;
Árvores com folhas que não se agitam ao vento,
Pensamentos que se perdem no vazio,
Vontades esmorecidas na escuridão;
Olhos que se perdem no horizonte,
Sem verem que o sol se apagou;
Esperanças desfalecidas,
Horas que morrem,
Ilusões que não nasceram,
Sonhos, que jamais serão sonhados;
Ventos que deixaram de sibilar,
Brisas, que não mais acariciam
E a lua, simplesmente desapareceu!


José Carlos Moutinho

O primeiro beijo


Íntimo do medo
(e não avesso a ele)
o rosto indecifrável sequer denuncia
a tropa de cavalaria
que lhe sacode o peito.
Enquanto as mãos,
na exposição do argumento,
tremem visivelmente,
ele permanece sereno, pousado
(gota de orvalho sobre a agulha do pinheiro)
no momento presente.
Daí o seu poder deriva:
de não querer domar a coisa viva,
mas cavalgá-la com graça
(o corpo não se opõe ao desejo).
Ele é dono do seu medo,
e o abraça.

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO