domingo, 21 de maio de 2017

Móbile: para Max e Max

Peixes de madeira
do Max menino
flutuando livre
sobre a balança:

Libra, o destino
lavrando justiça
em nome do amigo
do Risco, dois
emes que se buscam
e abraçam reunidos
no fim, sempre
início do livrado
círculo.

Age de Carvalho
poema do livro "Caveira 41 "

O que não é


Discussão não é briga.Dom não é mania.Obsessão não é estilo.Arte não é diversão. Trabalho não é salário. salário não é dinheiro.Dinheiro não é luxo.Interesse não é preocupação.Sexo não é penetração.Penetração não é introdução.Cuidado não é desculpa.Desculpa não é perdão.Perdão não é o fim.O fim não é diferente.Diferença não é oposição.Agenda não é organização.Ordem não é progresso.Progresso não é evolução.Sogra não é mãe.Namorado não é marido.Cunhado nem é parente.Amnésia não é insônia. Pesadelo não é sonho.Sonho não é doce.Gordura não é carne.Carne não é espírito .Espírito não é assombração. Assombração não é encosto.Encosto não é apoio.Brasileiro não é gente.

Fernando Bonassi.
Da Rua.Mais ! FSP.15/09/01

A arte de conhecer tigres

Não é necessário conhecer o tigre.
Seu bafo quente
Sua respiração pausada
Seus olhos de mel...assassinos.

A forma aguda de seus caninos
A aspereza de sua língua
O azedo ácido da saliva.
Não é preciso conhecer o tigre.

Melhor seria ocupar o tempo
Com mais fáceis e agradáveis afazeres.
Talvez, fazer poemas sobre tigres ,
metáforas que louvem sua agilidade,
belas aquarelas de suas formas e
cores...

Metafisicamente assim pensava,
quando...
Sobre mim: bafos , olhos e garras
Saltam sobre meu desespero e caninos
dilaceram
Minha carne inocente.

PS ( Tarde demais ) :
Para saber que os tigres tem dentes
Não é necessário entrar em sua boca.

Mauro Iasi

Praça do Patriarca e Rua da Quitanda

No centro, apesar das explosões de espaço os prédios estão em continuidade, próximos uns dos outros . Se houvesse um turista a tirar fotos, da calçada poderia enquadrar muitos prédios numa imagem só. Num espaço construído para os carros, como a Paulista, as distâncias são dilatadas e só entrariam poucos edifícios num único clique.

Vicenzo Scarpellini. FSP. Cotidiano. 25/10/00

Nessa paródia preste atenção eu vou falar

Nessa paródia preste atenção eu vou falar
Sobre a realidade e o que vamos passar
Nesse ambiente escolar e o que vai mudar ?
O " Novo Ensino Médio " só vai piorar !
Se você ainda não sabe deixa eu te informar
São medidas absurdas para estragar
O ensino médio e as gerações que estão por vir
Este é nosso futuro, devemos agir

Sem filosofia, sociologia e artes também,
Para alienar e o povo parar de protestar
O governo não quer que aprendam a pensar
Por que assim eles podem roubar, manipular
O povo que não questiona pois só sabe aceitar

Então vai
Tudo desmoronar
Se o
Congresso aceitar
Esse
Retrocesso geral
não vai
Ter  ponto final

Contrata professores com notável saber
E aí eu te pergunto o que é que vai fazer?
Sem licenciatura dando aula por dinheiro
Qual vai ser a qualidade desse curso por inteiro ?
E o investimento na educação, onde está ?
Pra ter horário integral disso vai precisar
Mas como vai realizar se vai ser congelado
Pela PEC 241 tudo vai ser arruinado
E essa tal proposta foi aprovada
Por mais de 300 deputados que elegemos para nada
Esses aí que eram para nos representar
Prometeram pela educação
E agora querem ela nos tirar !

Notável saber, professores sem saber o que fazer
Ensino integral, e investimento pode esquecer
O governo não quer que aprendam a pensar
Por que assim eles podem roubar, manipular
O povo que não questiona pois só sabe aceitar

Então vai
Tudo desmoronar
Se o
Congresso aceitar
Esse
Retrocesso geral
Não vai
Ter ponto final

Agora que tal a gente falar para valer?
Falar na moral pra que consiga entender
Sem todo esse discurso
que eles sempre usam
Palavras difíceis pra você não fazer barulho
Mas bem na real, é isso que eles querem
Que o povo não se envolva  e depois sinta na pele
Decidem o que é melhor pra eles
Se o povo não protestar o poder tá na mão deles
E pra solucionar a crise o que é que vão fazer
Congelar investimentos  na saúde e na educação
Mas tem outras maneiras e olhe só o que eu vou dizer
Tirar cargos comissionados, divulgação de mandato,
diminuir os salários , pra que 100 mil por mês
se você fica sentado e nem presta atenção no que está sendo votado
verba de gabinete sem mesmo estar presente
e os secretários decidem
o que é certo ou errado
e contatam o deputado
pra ser privilegiado
E o deputado só vota
sem saber do que se trata
Por que tem dinheiro de sobra
Enquanto eles ganham de monte
A desigualdade só aumenta
1 bilhão gasto por ano com deputados
Confirma a concentração de renda

Então vai
Tudo desmoronar
Se o
Congresso aceitar
Esse
Retrocesso geral
Não vai
Ter ponto final

Então vai
Tudo desmoronar
Se o
Congresso aceitar
Esse
Retrocesso geral
Não vai
Ter ponto final

O governo não quer que aprendam a pensar
O governo não quer que aprendam a pensar
O governo não quer que aprendam a pensar
(yeah, todos unidos )
O governo não quer que aprendam a pensar
 (Contra a reforma do Ensino Médio e a PEC  241)

Autor Dickson Ternoski.
aluno do 2B
Colégio Estadual Guaíra. Curitiba - Paraná
14/10/2016

Favelas do Brasil

(...)Cada favela tem seu bamba
Sua rodinha de umbanda
Que todos vão saravá, Ogum e Oxalá
As favelas sejam dez ou sejam mil
são favelas do Brasil

j.piedade/o.grazzaneo e j.mascarenhas

1961

Favela amarela

Favela amarela !
Ironia da vida !
Pintem a favela
Façam aquarela
Da miséria colorida
Favela amarela (...)

Jota Jr e O. Magalhães
1959

sábado, 20 de maio de 2017

Repente ascendente



De frágeis a ágeis
Viáveis
Veres

São sonatas
Sacras
Do ser, - fórmulas
Tão!

A imago adula
A bula
Da chula comunicação

"Em sendo"
Não me dirijo
Não almejo
Não revejo
Escrevo sob contexto
Usual

Profundas agonias
Vasta literatura psicanalítica

A estrutura de si
Não surpreende
A ninguém

Espetáculo tem de continuar
(Máxima palpitação)

Grudes de dores
Empesteiam
Superioridades em
Simulacros

Contradições, exclusões
Parâmetros das substâncias
Químicas

O corpo já não é corpo
Ou História
Ou leitura
Ou ser

Meus pelos luzem
Seres

Jogam água fria
Da fonte da sabedoria

Túrgido
De saber

O corvo assenta-se
No trono da coruja

Já não coleciona/nem tritura
Lágrimas

Esqueletos somos, do poder

Tóxicos, senão.

Não coleciono eu
Lograres plebeus
Ou
Sou
O que não fui seu

Apenas
Ledas vielas
Em suas querelas
Invertem o sangue
Sobre o papel

Supõem o livro


  Anderson Carlos Maciel
                      

PRAIAS DE SAGRES

Um poema para meus amigos d' Além Mar.



O melancólico Tejo
não é o único porto
do lusitano mar.
Também o são
as Praias de Sagres
onde no passado
confiantes nos deuses
chorosas mulheres
levavam a seus amados
antes de se lançarem
aos tenebrosos mares
aquele que poderia ser
o último beijo. . .

josé luiz santos


- por JL Semeador de Poesias –

domingo, 14 de maio de 2017

Hoje, que já beijei minha mãe, beijei e ao menos falei com outras das minhas muitas mães, pela primeira vez falta uma delas, a minha avó Amélia, com quem tentei aprender muito da arte do silêncio, da palavra de corte.
Encantada no último natal, cada filho ficou com uma orquídea, depois de deixarem flor e talo no caixão. Foi um adeus de beleza, digno de tudo que ela foi conosco, foi também essa chance de elo material com o que se perde na perda dela. No dia seguinte, eu plantei algumas daquelas orquídeas para todos que pediram e não sabiam bem como replantar esse dom, hesitante se conseguiria vê-las de novo em flor, como sei que não verei a flor da Amélia.

Assim pensei, mas esta semana floriram algumas daquelas orquídeas, floriram fora do próprio tempo, porque só costumam dar botão uma vez ao ano, então só deveriam voltar daqui a seis meses. Vieram antes, em flor, pra eu ver agora que levo eu também uma flor de Amélia comigo, que sonho medrar comigo, em mim, fora dos tempos, quando menos espero. Eu fiquei sem a orquídea, que é dos filhos (a da foto é de Sergio Flores, meu pai e também uma das minhas mães), mas levo meu florir de neto. Evoé, Amélia, Dona Menininha!

Guilherme Gontijo Flores

Neste perder de mim

Neste perder de mim,
O mar e o céu.
Um pardo límpido azul nanquim
E esta gaivota de papel presa em minha boca
Num silêncio de me saber quase sã e quase louca.
É dia sobre o Arpoador
A gente densa já passou carregando a vida pouca
e toda a possível intolerável noturna dor
Mas ninguém viveu deste silêncio o dissabor
Nem prendeu gaivotas à língua como se fisgasse flor
Ninguém, meu amor, vacilou entre o abismo e o céu
E nem viu as corredeiras que deslizam sobre o escarpado do depois!

Lázara Papandrea


sábado, 13 de maio de 2017

Sim: escreverei algo

Sim: escreverei algo:
venha pra mim agora, cristianismo, e ouça o que este seu observador pagão tem a dizer...
Sim, você mesmo: posso chamá-lo (ou chamar você -- já é norma falada) de calendário?
Eu não tenho escolha, não é mesmo?
Você é (também) o calendário.
E portanto deveria significar alguma coisa, não?
Você deveria significar o perdão.
E fazem você significar a salvação pelo pagamento de um dízimo. E fazem você significar tudo: menos o amor que é o perdão de tolerar as piores ofensas, o estupro diário de um imaginário que poeta nenhum se arrogaria a imaginar: isso é comido com farinha diariamente: e afinal, cristianismo: você significa o perdão?
Minha falta de humildade é suficiente pra te perdoar. E até te aceito: como se eu tivesse escolha: você é o calendário.
Mas ainda estou para conferir se esta ficha está caindo: perdoar os inimigos, oferecer a outra face após a bofetada, amar o próximo da mesma forma que se ama a si...
São mensagens que parece que só os pobres de espírito compreendem realmente: e eu sou pagão, mas também sou pobre de espírito, portanto me arrogo a compreender.
E assim, a reprovar essa (autoproclamada) civilização. Mas como só posso fazer isso graças à existência de tal civilização (e da correspondente tecnologia que faz com que você esteja lendo isso agora), então empatamos.
Melhor sorte da próxima vez, cristianismo... Nota 4,75 para sua civilização.

IJS

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Ode à lira de Apolo




Extinto o instinto,
Nômade
Perambulo pelo muro
Peregrino

Presente de grego,
No horizonte dos teus
Em verdade, em verdade
Vos digo.

O que não é
E o que é?

Sou.
E basta

Compre aquela pasta
Controle o que gasta

Perca
Peso

Sonhe desperto (a)!

Leve lauda moral
Teu quintal tem flores selvagens
Cuja rebobinagem
Estafa
Estressa e não
Entretém

Matamos a Globo
- Intelectuais -
E não oferecem ao povo
Mais, - que os seus, sim -
Bacanais astrais.

É necessário transcender
É
Por sobre pontes
Por sobre os ontens.
Por sobre a carcaça das horas
A ver se há melhora
A cunhar tamanha penhora
A enlevar multidões
Pelos porões
Do livro

Noites adentro,
Rios afora.

A beleza que se avizinha,
Senhora
Estética canora
Das forças de outrora

Some
Reverbere
Devaneio

Mais que triste desespero
Catapulta
Dos falsos sofredores

Circunscrição
De vazio

Passo para a redenção
Morfológico-sintática.

Anderson Carlos Maciel

Despertar dos padrões




Sobe seguro
O cimo do isopor
O calor do muro

A opacidade, o "furo"
Voto nulo
Autonomia clichê

Poemas nus
E não despertos

Colcha de paradigmas
Estéticos
Ao valor do cansaço

Remetem guerras
Nuances destas terras
Laudas peremptórias
Cuja glória se avizinha
Mercê

Rubor do meu amor
Apenas

Não aspiro
Não infiro
Não afirmo
E você, não lê

Teu ego é metáfora
Eventual
Nas páginas do jornal

Surja diante dos meus olhos
Sonoro
São
Tão
Livro

Prometo lágrimas
Que não cumpro
Sofrimento que não ilumino
Ou saga que não encerro

Surja canoro poema
Em literatura serena
No horizonte desta viela
Das paredes do meu ego
Das vestimentas
Que não me traduzem

Sempiterno espelho
Esmera-se em significar
Ponte estrutural

Que ruirá ao templo
De Palas Atena

Anderson Carlos Maciel

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Lágrimas de aço



Arte, enfarto
Tanto fato
Destarte parte
De mim

Uno ao isopor
Que como, com
Colheres de dedos

Neoliberais desejos
Paradoxais individuais
De ser feliz

Não sou surreal
Não sou
Sou mal, sou verbal

Tal como o mel
Tal como teu

Suaves espinhos
Crivam destinos, pergaminhos
Civilizações inférteis
Ao som da areia mais fina

Teus óculos caem ao chão
Do papel
Minhas teclas dançam ciranda
Saltando ondas
Tortas, não tortas
Aortas nas portas em quais
Andas
A bater.

Sonho com a árvore
Calejo a alma
Envergo o universo
Para te colher, - fruto
Tão livre

Mãos minhas, meus
Segundos de zelo
Forma estética senão
Apelo
Apenas
A pé
Ao passo do aço crasso
Em lágrimas

Do teu adeus

Anderson Carlos Daniel

domingo, 23 de abril de 2017

MENTIRA


-Eu amo você, poderia ter floreado ou colocado mil figuras de linguagens, mas é exatamente isso que eu quero te dizer.
-E o que eu faço agora? Respondeu ela tentando mostrar certa surpresa Para uma coisa que ela já sabia.
-Agora seria uma bom momento pra te segurar em meus braços e te beijar com o por do sol como pano de fundo, mas isso aqui não é um daqueles romances de bolso que eu costumava escrever só pra poder pagar minhas contas.
-O fato é que eu nunca sei quando você está mentindo ou falando a verdade. Você é um escritor, um contador de histórias, um cara que ganha a vida fazendo as pessoas acreditarem no que você diz.
-isso é um elogio ou uma crítica?
Cronicas de Noites Mal Dormidas

Joe Alvez

sábado, 22 de abril de 2017

OS ABANDONADOS


Certo dia,
a mão do destino,
talvez por descuido,
abandonou-o
nas mãos de uma mulher
abandonada pela sorte.
Em frente a um castelo abandonado,
ela abandonou seu filho
e depois a vida.
Passou de mãos em mãos
e deram-lhe o nome de Jorge,
nome de santo, abandonado.
Estudou em colégio interno,
de meninos abandonados.
Cresceu, sorriu, brincou,
porém seus melhores amigos
abandonaram-no.
Amou, amou, amou feito bobo
e foi abandonado pela mulher.
Hoje, no entanto,
quando a mão do destino
veio para buscá-lo,
não estava sozinho.
Havia três corpos
num terreno baldio,
abandonado,
abandonados.

Luiz Medina
sinto, marília, dizer
que no teu olho apagado
acabo de anoitecer
num mundo vitrificado
na morte mais indizível
de que alguém quer morrer."

RR

Sei



Sei que a palavra basta
Bastarda,
Sei que nada sei,
Sei sobre a lei
Sobre o rei
E sobre ninguém

Sei que minha falta
Minha fala
Cala teus sinais
De eternidade
Tão
Deus

Sei que tudo
Sei que nada
Sei que é fava
Consumada

A lágrima emprestada
A solidão que jorrava

A opacidade das mãos
Que não conjugam lábios
A falar
Apenas a si

E mais alguém

Sei dos teus desejos
Sociais
Sim, sei...

Queres os povos
Queres livros novos
Queres tudo
E não queres adeus

Queres o enigma
Queres o escudo
Queres a máscara
Queres o estilo
A conjugação e
Morfologia sintática

Sei que queres
E desejas
Ardentemente
Transcender

Pois traslade
O neoliberalismo que
Nos invade

E sonhe, viva
E deixe para depois

De pronto
Um conto, que conto
A vocês.


 Anderson Carlos Maciel

Quando uma Amizade Colorida Vira um Casamento Branco



Uma linda amizade colorida...
Sempre chega de um jeito franco,
De maneira leve e atrevida...
Com um fogo nada brando!

Os dois passeiam de mãos dadas,
Pelos parques, praças e jardins!
Como dois anjos de asas aladas...
Sem compromissos fixos e ruins!

Eles se beijam sem saudade...
Eles se abraçam sem dor...
Pois tudo isto é uma amizade...
Sem a depressão do puro amor!

Ela é mais do que a menina do olhar...
Porque é a musa da mais doce íris...
Ela toma banho de cachoeira ao luar!
Porque seu amado é o real arco-íris!

Mas, quando isto acaba em casamento...
Tudo na alma do casal fica branco!
Pois a monotonia é o tormento...
Do arco-íris mais franco!

O branco é a mistura de todas as cores...
Do arco-íris nas amizades com amores!

Quando uma amizade colorida,
Alegre, maravilhosa e divertida...
Transforma-se num casamento branco...
Na praça passa a existir um vazio banco.

Luciana do Rocio Mallon

sexta-feira, 21 de abril de 2017

exercício secreto

Marilia Kubota


para que o céu se move
sem que ninguém perceba
nossos olhos astrônomos
pálpebras coladas
em paisagens de papel e vidro.
para que cuidar de jardins
jamais vistos como os onde
as flores vibram e morrem ?
para que a vida existe e passa :
e só aqui vive
depois tudo passa
e cessa?

(selva de sentidos, 2008)

não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível

Marilia Kubota

(selva de sentidos, 2008)



Marilia Kubota


minha palavra não ilumina o mundo. de vez em quando me destranca.

Assim falava Zaratustra



vá até a janela
há dois carros
duas rosas
umas senhoras

algum silêncio
que respira
entre as coisas

Todo dia o poema deixa o sol
para ir ao ocaso.

Adri Aleixo



Anti-terrorismo
o ar está parado
atravessemos a rua
em frente à galeria olido
faz horas que o trânsito também está parado
e disseram que está assim em toda a cidade
há muitos pedestres nas ruas
as narinas que respiram o ar parado
ameaçam se converter em pequenas olarias
os tijolos podem servir de armas
na mão desses desordeiros
o terrorismo sãosos braços abertos
de trinta e nove secundarista
ah se fosse meu filho..!
o terrorismo é essa gente
ainda querer ter direito a férias
imagina se a moda pega?!
dizem que hoje
todos foram liberados mais cedo do trabalho
imagina se a moda pega?!
a copa e as olimpíadas já passaram
mas o risco de atentado continua



 A poesia de Marcus Groza, em mallarmargens:



Bacamarte



Tribuna aberta:
Tumba setembro, tumba setembra
sofre flautos faróis cantares
de pássaros doentes em suas cores.
Metais.
Já passou a hora de brincar.
Já passou a hora de ir embora.
-“Levem os falconetes daqui”-
Sacia suas coisas em cálice afastado
ao afaste de vã felicidade e calça jogada.
“Meu corpo já repousa na sombra do sol.
Eu poderia estar morto.”
Aqui vivo mais que o silencio.
Minha cavernosa membrana
se formam cordas estalagmites
apontados para uma pupila,
com sua espessura
de tato tártaro lago bafo.
Esse trem sentado.
A terra pinta suas ruínas
pelo ventre vento inerte
ao brilho frio de calor de ouro
calor de soja, calor de gola.
A aragem carruagem passa
cigarro largado lagarto
em rochosa pele de combustão
ao gatilho de lábios úmidos.
E das palmeiras se jogam
mosqueteiros vértices nos trópicos.
Uma fria aranha reina colônias ásperas
em secas teias dentro da cabeça.


 O mineiro Lucas Alvim:

eu's



narciso mergulha n’umbigo
e insiste
:
espelho espelho deus
existe alguém no mundo?


* líria porto

RENASCIMENTOS


Tenho, em mim, uma roseira de frutos doces e amaciados
de manhãs inertes - celebrados sem artifícios ou colorações –
poderiam ser encontrados em dias de pouca luz
daqueles esquecidos nos poentes de mármores vazios
quase ao desalento, ricos de madeixas escuras e perfumes de cristal,
tão idôneos em sua ligeireza que entre eles se descobre a água
como um metal de cheiro e calor em seu leito de alvorada.
Foram renascimentos e escutas de uma eternidade vazia
quase opaca na retidão de suas fronteiras, muita saída a sal
e nuvens, circunspecta no eixo maciço da navegação em terra
fria – mesuras e ciência do cotidiano – pássaros e sombras,
fusos e rocas de sabedoria
quase vergando
da alma
a sombra de sua pedra angular - finitude.
Foram nesses estremecimentos de ventos e voltas que estendi
cem contas de fadas e foram uns discursos de meio tempo
regados ao líquido e à nata por ali estremecidos dos corredores
estrelas e parcimônia das vantagens do esplendor da vida
a luta da subsistência
estiagem verde e marinha em beijos salinas
versos que se criam monásticos elásticos
prenhes do desejo branco da liberdade
quando ainda não havia o tempo, o fio e o medo
só essa valente sina de semáforos e luzes
aspirando o anjo em seu pouso branco
outono dedilha sua ventura na laje e no apego.


Jandira Zanchi (A Janela dos Ventos)

imensidão

Marilia Kubota


escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria


(selva de sentidos, 2008)

CELLO


é infinitesimal o segundo do décimo de tempo
em que me rendo à paisagem tardia desses olhos fixos
auréolas escuras de vigésimo de instantes
- antítese no som de cello de Bach e adjacências -
nem todas as reminiscências são castanhas em dó ou Sol
antes, enviesadas, cortam um céu de vadios
e vacilantes arquejos sonados
das suítes ressonadas
pautas embriagadas de fé e fúria
- antes do amor é a fuga -
a esperança única de horizonte inteiro e virgem
adormecida nos cristais perfumados da vigília oriente.

Jandira Zanchi (Área de Corte, Patuá)

Cotidiano XI

Leopoldo Comitti


Não choveu. Apenas
nuvens cobriram o azul
de mestre Ataíde, deixando
sombrias as faces dos anjos.
Não choveu entre os feixes
esparsos de sol. Um desbotado
tom recobre a tela,
como se os adros antigos
impusessem a pátina das pedras
à natureza também barroca.
Guirlandas de flores foscas
aguardam luz, ou o breve brilho
de uma só gota.

Não mais do que uma.

VENENO


por entre as fronhas fortuitas dos anos
-como um bezerro -
bebi o lácteo veneno da dor.

Jandira Zanchi (Área de Corte, Patuá)

pegadas invisíveis

Marilia Kubota

pegadas invisíveis
chuva de outono
de trás da grade do parque
o musgo nos troncos
evoca o grasnar
de patos selvagens
a iogue caminha
pisando folhas secas
entre pingos
o lago revolve
espirais

.
Marilia Kubota

hoje, em vez de usar uber, voltei a usar ônibus e caminhar a pé. e constatei que há ruas (só de condomínios) em que não passa ninguém andando a pé em Curitiba. as movimentadas, em que passam carros, são onde existe vários tipos de comércio.

nas praças não há quase ninguém. e pensa que está todo mundo dentro do shopping ? fui a três, muitas lojas estavam de portas fechadas. não havia tanta gente assim. creio que todo mundo está em casa digitando.

previsão de mim

Sérgio Villa Matta



não alegre, nem triste: nublado
chove a cântaros a oeste de minha alma
mas, molho o rosto e escorro-me como
um passarinho de asas azuis e pequenas fagulhas incandescentes.
o dia é nítido como uma borrasca austral
e o silêncio é névoa benfazeja do relógio tic tac

da sala interior de mim.
Marilia Kubota



 Vou almoçar num restaurante desconhecido e não gosto do lugar. procuro um lugar conhecido para tomar café e vejo que o café mudou. na volta, vou ver as capivaras no passeio público. continuam as mesmas ? não, mudam dia-a-dia. só eu é que não vejo.

AFIAÇÕES DA LÂMINA

Leandro Rodrigues



I

É rápido o golpe
O fracasso
A simetria fria
da dor
O novelo desfeito
O relógio que ousa
girar seus ponteiros
ao contrário
A nuvem que paira
cinza cor de chumbo
e encobre a paisagem
bucólica - anônima

É solitária a agonia
a chuva, a ausência da palavra
[ precisa
a intraduzível morbidez
do todo
um jardim e seus canteiros
em cores vivas.


II

É solitário o golpe
a imprecisão
da dor fria
cinza - do todo
O relógio desfeito
O novelo que ousa
desfiar-se ao contrário
- intraduzível morbidez
[ que paira


palavra de chumbo,
paisagem precisa
que encobre um jardim
anônimo – bucólico


É rápido o fracasso
em cores vivas,
a ausência da simetria
fria - chuva e agonia
como a girar
seus ponteiros
de nuvem.

(L. R.)


de: Aprendizagem Cinza, págs. 60 e 61. Ed. Patuá, 2016.
Marilia Kubota

uma mulher super maquiada como um fantasma aparece no jornal. ela é especialista em algo importante, mas ver a maquiagem fantasmagórica a desautoriza imediatamente para mim. sua artificialidade é revelada de chofre, e também seu trabalho fútil, super valorizado por uma sociedade cujo núcleo é a criação de aquisição contínua de inutilidades

PAISAGEM


A nuvem
é a caligrafia da água,
o chão
é o palimpsesto do tempo,
os olhos alinhavam
os desencontros,
o coração
costura os retalhos.
Nalgum lugar
desloca-se
a paisagem para muito além
de si mesma:
o mundo reverbera
mas nunca se alcança.

 Cleber Pacheco
Se você faz de você uma bolha é uma coisa
Mas saiba que tem gente morrendo no apartamento ao lado
Talvez agora mesmo eles estejam fazendo "aquele" telefonema
Sobre como providenciar tudo e como deve ser a cerimônia
Uma prima já reservou passagem pra o próximo fim de semana
A filha mais nova não se conforma com isso, mesmo quando disseram que depois o quarto ficaria pra ela
E você aí deitada lendo Raymond Queneau como se nada
E uma outra coisa muito pior, sabe o que é?
Se você faz de uma outra pessoa sua própria bolha porque daí não tem mapa de navegação que segure essa onda

Assionara Souza






Deus não é Deus,
ele dizia com os olhos perdidos em mistérios
Se Deus não é Deus quem é Deus?
Quis eu então saber,
Porque um Deus há
Endeusado, enraizado em mim.
"Deus não é como Deus deve ser."
E como deve ser Deus?
Quem é esse Deus que não é como Deus deve ser?
Quis eu novamente saber, porque realmente não sei
Como Deus deve ser, já que Ele vem se metamorfoseando em mim
o tempo todo.
Já foi barbudo, imenso, maior que o coqueiro que era maior que a casa.
Também foi sisudo, de pouca conversa, e ficava o dia todo na praça enlevando os pombos.
Uma vez virou mar, ficou bíblico,pairava nas águas e eu, na praia, extasiada,sem me mexer.
Da última vez, chegou em asas, bateu à minha janela, quando abri, Adentrou a casa e por dois dias inteiros morou na plástica rosa azul ao lado da imagem de Nossa Senhora do Carmo.
"Deus não é Deus'.
"Deus não é como Deus deve ser."
Aquilo retumbando em mim, a igreja lotada, olhares, olhares, olhares.
Criei coragem:
Deus é como Deus é.
Veio o silêncio.
Também era Deus.

*

Lázara Papandrea

Estamos exaustos
de regar plantas
e dores
e de amores
exaustos
de esperar cartas
e livros
e dias melhores
exaustos
de apertar botões
de elevadores,
pôr gasolina
nos carros
de trabalho dinheiro
trabalho
exaustos
de planos
e de metas
e de promessas
exaustos
de verões
e de invernos
e de outonos
e primaveras
exaustos
da procura pelo verso
inconteste
o verbo inconteste
exaustos
de feiuras
e de belezas
e espelhos
exaustos
do exercício
casto da ordem
e da desordem

exaustos.

Katia Borges

MEIA FURADA


Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Eu devo confessar que nos dias de hoje estou meio louco,
corro de lá pra cá, o trabalho é demais, e o salário, pouco...
Minhas coisas do amor, eu devo confessar, ando sobre o fogo:
casamento acabou, e todo dolorido já entro em outro...
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Quando pego estrada, o meu carro quebra, e o pneu fura...
De noite, na festa, eu tiro o chope sem a levedura.
Depois do descanso eu já vou trabalhar, que a vida é dura,
se é só vadiar bebendo num bar, já não tem mais cura.
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Desde anteontem meu computador já quase não computa...
Internet caiu, o monitor queimou, só ficou a lata.
O programa travou, o teclado pifou e desistiu da luta,
Computando tudo, parece que ele tá bom pra sucata.
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...
Quando o poste caiu, energia faltou, e eu fiquei no escuro,
fiquei sem novela, sem vela, sem tela, nem noticiário.
Quando voltar a luz eu sacudo a poeira e saio do muro,
prometo a mim mesmo contar como foi no querido diário...
Se a meia furou, remenda!
Vai sair melhor do que a encomenda...
Se a vida azedou, insiste!
Passarinho voou, fica sem alpiste...


Letra e música: Bento Ferraz

ASCENSÃO E QUEDA


fragmentos de noites a emergir do silêncio,
ascensão e queda de um ídolo.
o que é a vida senão ascensão e queda?
.
a palavra escrita no muro,
a geografia triste de uma história.
a dor ferina a doer com força,
com a força maior que a de mil tigres.
.
os iconoclastas venceram a masmorra.
Sodoma e Gomorra a parir o feto morto,
o afeto a despir a minha própria ausência.
.
criança me vi onde ninguém mais me via,
por via de fato cresci onde você me esquecia.
transtornado pela tristeza
o arfar do peito com a última gota de sangue.
.
fere o peito marcado com a cicatriz
sombria da crepuscular solidão
a angústia desesperada da minha última dor.
a liberdade tem a cor do amor!
.
o grasnar atroz de um corvo solitário
com o peito devastado de distâncias
encerra na atmosfera soturna do poeta perdido
a dor lancinante do último poema desfeito.
.

Abril- 2017- Evanilson S. de Almeida
"Não quero um fragmento
ou uma citação que cause impacto
quero um poema inteiro
mesmo que seja ácido
Não quero uma esmola
quero o nada que dá impulso
o nada que move a força
a força que move tudo
Não quero uma cópia
quero o original
quero uma trova,
mas que não haja igual
Não quero ser mesquinha
conformada com quase tudo
Sacuda meu corpo com a simplicidade,
mas que seja inteiro.
Então dá-me uma música!
Quero a intensidade
O suspiro profundo
Sair desse mundo
Quero uma palavra
não abreviada
que seja inteira
distinta ou camuflada
Que me faça rir
que me surpreenda
que me faça refletir
que me compreenda
que me faça amante
que me encante
que seja inteira."

- Madalena Daltro

Membro Efetivo da ALLARTE
Ocupa a Cadeira Nº 21

Seu Patrono é Lima Barreto.