domingo, 22 de abril de 2018

Illusion

Esqueça  a poesia , ela não virá .  A poesia está na escuridão  tentando encontrar uma estrela guia. Ver os pássaros poetas descordenados de suas frágeis bússolas de fibras e penugem ,baterem-se no ar rarefeito dessa fábrica de esgotos e coprófaga existência  na terra sequestrada pela angústiosa ambição tanática do Deus Mercado.Tornou a muito a alma zumbi um arremedo de luz , um fio de fumaça se perdendo entre as luzes de neon refletido nas telas de computadores .



Wilson Roberto Nogueira

preconceito e xenofobia

Cada passo uma caminhada encarcerada num sujeito sem rosto que procurava uma face no espelho do outro e aos tropeços só conseguia sentir o sabor da dor e do sangue."Como encontrar no outro o reflexo de quem sou ? " É melhor para de arrastar o peso da incerteza e da busca da palavra -ponte na boca de outras cores ou a tradução das fibras nos intestinos de quem não queremos ver. Nossos fantasmas se agigantam nas sombras do que ignoramos, o outro veste-se de espinhos e chagas.Cavalgamos nosso ódio em direção a essa figura que invade a janela de nossos lares ameaçando invadir.
O que é a alteridade além do mugido dos fracos a rasgar as fronteiras de nossas consciências míticas .Segregar , compartimentar assim como congregar no odiar é tão mais empoderador como ser uma partícula de tsunami numa torcida de futebol ( ou num templo ), onda humana avassaladora .Incandescentes flechas de ódio projetando-se pelo poder do anonimato, manada de bestas feras se lançando  ao abismo.Parideiras de frutos tumorosos  que urgem sangrar nos amanheceres sombrios.

Cuidado com o fascismo ele mora em todos nós aguardando devorar nosso idealizado altruísmo, generosidade e igualitarismo. Muitos acreditam ainda serem cristãos , mas amam odiar o próximo e usam a bíblia como se fosse o Mein Kampf.


Wilson Roberto Nogueira
Há dias em que a poesia não vem. Que fazer, se não esperar? Passear ao sol. Ver um pintassilgo do lado de fora de um viveiro cheio de pássaros. Ouvir conversas de namorados. Perder o caminho do restaurante. Tentar ajudar um bebê a beber água , e em vez de ajudar, atrapalhar. Evitar polêmicas no Facebook, digitando devagar. Ler um best-seller recomendado há tempos por uma amiga. Comer pão com pasta de queijo. Não atender a nem um compromisso. Ver a lua no céu. Lembrar de uma conversa e responder, mentalmente. Desejar que amanhã o dia retorne mais lento. Entender com o corpo o que é carpe diem.

MK

sexta-feira, 20 de abril de 2018

de tudo, meu bem, me lembro:
não chegaram, por ainda
os licores de dezembro.
do teu amor me padeço.
me faltam agora, viu?
na minha paixão infinda
os teus licores de abril.
de nada, meu bem, me esqueço."

RR

ISABELA ADORMECIDA


Isabela perambula
sob pálidas estrelas
contando passos e luas
por ruas, praças, vielas
Esmolambada e banguela
Magrela e sem sobrenome
ela é somente Isabela
filha do vício . . . e da fome
Quase não come . . . nem fala. . .
se fala, fala sozinha
(ninguém se presta a escutá-la)
caminha, pena . . . e definha
Louca de ‘pedra’ e ‘farinha’
desnorteada no sul
Isabela ‘perde a linha’
sob o sol e o céu azul
Tão arisca quanto um bicho
vagueia de pés no chão. . .
buscando em latas de lixo
restos de paz, sonhos, pão
algum beijo enferrujado
um crepúsculo lilás
um poema inacabado
um dom . . . que ninguém quer mais
qualquer verdade encardida
um túnel com luz no fim. . .
um milagre . . . uma saída
uma porta, um trampolim
um naco de amor, de bolo
um lírio , um favo de mel
qualquer alívio ou consolo
um mapa que a leve ao céu
Mas, Isabela não acha
mais que esperanças perdidas. . .
e segue assim, cabisbaixa
pelos becos e avenidas
Cheia de medo e feridas
Cheia de angústia e torpor
ri das luzes coloridas
que piscam pra sua dor
Vaga só e desvalida
entre os ‘cidadãos normais’
‘gente de bem’, ‘bem nutrida’
‘semelhantes desiguais’
Passa desapercebida
por todos . . . mas, não por mim
que enxergo em sua tez desiludida
um não sei quê de anjo (Querubim)?
Quisera dar-lhe guarida
um fardo menos ruim
um’ outra chance . . . outra vida
mais feliz, menos doída
outro começo, outro fim. . .
Guardá-la em mim, protegida
e nunca mais vê-la assim
desacordada, caída. . .
‘Isabela adormecida’
sobre a grama dum jardim
entre flores sem perfume
e gente sem coração
num mundo em que a piedade
é um ‘mau costume’
e a fria indiferença . . . ‘convenção’
Os olhos de Isabela não têm lume. . .
São negros . . . são da cor da solidão
Da cor da sua pele de betume. . .
Tão negra . . . quanto o ébano e o carvão
Tão negra quanto a negra escuridão
que assombra minha alma (tão pequena)
ao escutar da boca de um ‘cristão’
---- Não sinta compaixão. Não vale a pena. . .
Eu guardo em mim os olhos de Isabela. . .
e sei que ela guardou os meus também
Tomara Deus . . . um dia . . . os olhos dela
enxerguem toda a luz . . . que os meus não veem.

PAULO MIRANDA BARRETO

Pássaros Ruins T3 #2 - Marcos Pamplona

segunda-feira, 16 de abril de 2018


pensam que faço poemas a machado?
faço poemas com fino tratamento:
no corpo do poema o meu tormento

na sua pele meu corpo revelado."
RR

Sombra aquática pelas auroras do meu bem



Sem nem quem ser
Seria são parecer

Livre navega e cega qual
Mar, luar dos doutos:
Hoje sua verve isopor

Artificial bacanal se insinuou
Sina.

Agora aquela semente plena
Refreia o poema como quem
Sem nem amor, nem
Flor
Adere ao jardim etéreo
Próximo ao cemitério
Da noite que brotou.

O sol se põe, sim se põe
E como o dia navega,
Navego, estóico, fluo
Nevo, nego, nervos
Sumo sacerdote do ego

A teoria me contempla o chão
E pela ode a mim encontro o pão
Relembro pontos azimutais
Nos carnavais da luz
Quais seres sem paz
E naus pelas páginas sem sal

Indiferente ser indifere
Entre os iguais felizes finais
Pelas searas bestiais
Da ignorância e do clichê.

Revolvo meu grude hipnótico
Na catarse dos idos aparelhos
Simbióticos e revisito a moral
Inspirada na cratera da habilidade
Literária

E a prática reumática
Do léxico adulador.

A estrelas aprenderam comigo
A bailar em brilhos fugazes
E coloriram o céu noturno
Com sua solidão prepotente

Os olhares artificiais dos holofotes
Não logram lágrimas

Ao saborear a maestria
Da minha pena serena

A narrar os inconscientes
Para estruturar os sonhos
Em realizações consistentes
Dos patamares semoventes
A alavancar o linguajar das gentes

Falar um dia do verdadeiro amor

A única beleza possível.

anderson carlos maciel, 


os meus silêncios fracassaram."
RR

terça-feira, 10 de abril de 2018

Amizade

Um cofre onde sao depositadas as vísceras d´alma d'outro e não só o coração
onde reside a difícil substância que ninguém quer d´outro beber.
é fácil tomar o néctar da felicidade forçada para não desagradar outrem com o peso da vida.
é o cofre onde se deposita o lôdo negro doutr'alma e a decanta, e a torna,aos poucos
cristalina, refletindo a luz enfim.
Um cofre a guardar a  pesadalma e a torna-la leve pela lealdade.

E fácil ser superficial em mornos tempos liquídos.

Wilson Roberto Nogueira

quinta-feira, 29 de março de 2018


há o martelo da morte
sobre mim.
há o martelo.

quando eu encontro a vida
e sua noite?"
RR

Eu sempre gostei mais



dos poetas sem nome. Aquela senhora que passa, para em descanso e fala, sobre o tempo do céu e o clima da vida. Aquele senhor que nem para, gesticulando de longe e falando bom dia, à tarde, em alto e bom som. Aquelas crianças que buscam na escola e, sem que as mães vejam, me cumprimentam acenando tímidas, diariamente.
Eu sempre gostei mais, dos poetas sem nome. Desses que identificam nossas fomes e sem perceber, nos alimentam de coração.

Joakim Antonio

(sendo bem alimentado)

LACRE 12




Minha asa está ferida
pelo sopro da noite,
pela respiração dos chacais.

Não quero rugir
com os insanos, mas
cingiram-me às suas cosmogonias.

Milênios sangram em mim
os mortos que assassinaram
anteontem;

e os atavios da fé
em meu coração de pólvora.

Insulado de enigmas,
ergo na sombra um amanhã
de estilhaços.

Voa, poesia,
antes que um tiro te alcance.

Salgado Maranhão
(ópera de nãos)

terça-feira, 27 de março de 2018


Autor Edilberto José Soares
( Beto Poeta do Mangue)

Eu precisava ouvir sua voz
a melodia da sua alma
pois andava sem ter paz
falava só de madrugada

pensei que tinha enlouquecido
por você ter esquecido
todas as declarações de amor
em cada gesto, cada fala

falava só a minha alma
pensando falar com você
fazendo declarações ao vento
pedindo pra o vento levar

levar o meu pensamento
revelar meus sentimentos
eu precisava ouvir sua voz
a melodia da sua alma


... A FOICE ...




Peguei a Foice da Dona Morte emprestada, sem Ela saber é claro!!!.
Peguei para passar manteiga no pão... Descascar batatas... E apontar meus Lápis de Cor... E tirar sujeira de debaixo das Unhas.
Quan-do ela dês-co-briu!!!
Muito melindrosa... Desatou a chorar!!!
“Sniff!!! Sniff!!! Olha só oque Você fez... Está imprestável... Não tem mais fio... Como vou trabalhar??? Eu nunca falhei... Estou arruinada”
(DRA-MA-TI-CAAAA)
“Que vou fazer agora de minha Vida... Oop’s quero dizer Morte... Minha morte não tem mais Sentido!!! Vou ser castigada com a Vida... E Eu, que sou tão jovem... Somente trocêntos e cinqüenta e onze pintilhões de anos!!! Um Bebê Eu sou!!! Mal comecei à Morrer!!!”
“Quer saber??? Vou me trancar no meu quarto... Me entupir de Lithium e Rivotril enquanto ouça músicas EMO!!!”
Por quatro dias ninguém morreu... O Caos tomou conta do mundo!!!
Fiquei envergonhado e com remorso... Peguei a Foice... Limpei-a... Depois a afiei... Peguei um tronco de Carvalho e talhei um cabo todo estilizado e personalizado.
Quando tudo ficou pronto... Todo Orgulhoso procurei a Dona Morte... E lhe devolvi a Foice.
“Oh!!! Que coisa mais linda!!! Você fez tudo sozinho??? É mais bonita que a antiga!!! É!!! Você conseguiu se redimir!!! Agora tenho que voltar à trabalhar... E por falar em trabalho... Sabe aquele Cigarrinho de Artista que Você tanto gosta... Pois é... Estica o Pescocinho que você vai ter um AVC fulminante em... Três... Dois... Um...
ZZAPTT!!!
“E não é que Ele deixou bem Afiadinha mesmo”
“Lá-rá-li-rá-lá... Eu tenho uma Foice novaaaa!!!

Gutemberg de Moura

Vãs Filosofias




...Hoje sei, que toda Filosofia é vã.
Pois todas as Filosofias são criações de Homens.
E como tal, o fim de todas é tão somente validar a Existência de seu criador.
E o que é pior, todas tem como base as Crises.
As crises existenciais... crises emocionais...crises intelectuais.
Mas, a pior de todas, são as Crises Espirituais.
Deus? Quem é Deus?
Não sei dizer.
Deus? O que é Deus?
Não sei dizer.
Deus? Como é Deus?
Não sei dizer.
Mas, sei dizer quem Ele não é...
...Sei dizer o que Ele não é...
...sei dizer como Ele não é.
Por isso que hoje sei que toda Filosofia é vã.
Meu Espírito Inquieto e Questionador fizeram-me.
De quase tudo ver... De quase tudo sentir.
Minha mente ágil... E uma busca incansável.
Fizeram com que Eu entendesse.
Quase tudo que vi...Quase tudo que senti.
Dons? O que são Dons?
Não sei, ou saiba, mas não tenha digerido ainda.
O que sei é que nasci com Um ao menos.
O Dom do Discernimento, ainda não sei usar direito.
Mas já descobri que contrariá-lo é “Dor de estômago”.
E que repreende-lo é “Dor de dente”.
Por isso a dificuldade.
Consigo saber facilmente tudo o que está errado.
Porém fazer tudo correto é outra História.
Erro... Errei... E Errante vou “Doendo”.
Todavia entendi que há Terceiros.
E como tal alheios a “Mim”.
Portanto admito... Sim admito.
Minha Filosofia também é Vã.

Gutemberg de Moura

Os filhos do Corno de África




A terra é a minha cama
e o corpo humilhado da minha mãe, a cabeceira
à noite os bichos
escoram-me do frio e comem outros bichos
que nutrem a minha carne podre
não sei o que é um sorriso
nunca conheci outra vida se não esta

Somos tantos
deitados na mesma cama
já não me levanto
a astenia das minhas pernas
já não seguram o meu corpo
às vezes a minha mãe
mete-me um punhado de farinha na boca
para que a fome não me coma

Não sei se sou criança ou menino
aqui somos todos iguais
não existe idades nem formas
as dores vão deformando
as formas do meu corpo
e o medo assombra-me a sombra
que se cala por baixo de mim

Se pensam que nos matam enganam-se…
…Mutilam-nos

Os ossos desfazem-se lentamente
os dentes cravam a terra
tentam libar água das noites húmidas

Todos os dias adormecem milhares
na boca do inferno

Por mais que os poetas destilem
os cantores clamem
os pintores nos esbocem
jamais alguém conseguirá
abrir as portas da galeria horrenda
e expor o massacre da morte
que nos engole em jejum

Conceição Bernardino


Memorando de PE



Autor: Esdras Lee.

Pernambuco Joga todo seu sabor para fora
Ninguém o esquece quando vai embora
Pernambuco minha região
Que mexe com o meu coração

De muitas cores e transformações
Anda lotado de emoções
O estado que respira o maracatu
Ensina artes para mim e para tu

Pernambuco se encontra nas alturas
Com todos esses tipos de figuras

Rechiado de manguezais
Rodeado de praias naturais
Que criou poetas imortais
Encostado em mares e cais

Sua fama é internacional
Sua cultura é a mais atual
Pernambuco imortal, imortal
Imortal, imortal, imortal...



Sou da terra de Guimarães Rosa
boa de garfo/ingenua esperta
Sou da época do fim do mundo
boa no repente/sadica masoquista
Sou partidária da boa cama
dos tempos gastos no poema
Alisto-me agora e eternamente
no quixotesco exército de la mancha.

cristina ohana

COVARDIA TEM FARDA




Homens de farda escura
caminham pelas ruas a procura
de uma vítima,uma cobaia humana.

Não tem piedade por quem quer
que seja,se criança ou cidadão
de bem.

Não faz o bem sem ver a quem,
esquecem que veio da terra de
quem a tirou um grão,para lhe
dar o pão.

Vestem a farda,se acham e ficam
atirando pra todos os lados...

E as balas perdidas perfuram o
peito dos inocentes que nada
tem a ver com os festins.

Emanuel Carvalho

Amazônia ...onde está?


Amazônia ...onde está?



Onde …onde… é que está.
Amazônia suspiro de respirar!





Onde …onde… é que está
Amazônia pulmão da humanidade.





Os homens ,as crianças por oxigênio na vida a procurar
As árvores ,quase não balançam
Vejo crianças agitadas em balões.Esperam ar puro
Por vida clamam,enquanto sobrevoam por todo espaço.
Deus estende a mão para aliviar ar pesado
despejados em atmosfera vindos de toda esfera.
Os homens não cantam.
Serras não param de cortar e o fogo faz fumaça chamuscar.





Num momento ví alguns pássaros
Sobrevoavam entre nuvens, vôos em círculo.
Não queria acreditar.
Seus ninhos não estavam nas árvores.
Os macacos já não faziam suas acrobacias.
Não acredito…
Onde estão as onças para tela enfeitar
Choro se faz pelo Universo.
enquanto poeta chora em forma de versos.





Onde …onde… é que está.
Amazônia suspiro de respirar!





Onde …onde… é que está
Amazônia pulmão da humanidade.







Queria… muitas de novo plantar.Uma nova tela deslumbrante
ressurgirá …para nosso Planeta renascer.
Venha…venha ajudar.Nova semente e um pouco de amor
é só o se que precisa. Venha , os peixes querem borbulhar
por planície de maior oceano de água doce.
Doces momentos irá se configurar ,flores abrirão.
Nosso corações entoarão o maior hino da Terra
e os sinos bem alto pelo mundo tocarão.





Onde …onde… é que está.
Amazônia suspiro de respirar!





Onde …onde… é que está
Amazônia pulmão da humanidade.

regina ferreirinha 02-06-2011


quinta-feira, 15 de março de 2018


Saio de duas clínicas psiquiátricas
para um mundo cheio de loucos...
Envenenam-se as relações diplomáticas
e as sociedades apodrecem aos poucos...

Sem reticência que exprima,
sem sequer o arrimo da rima,
é hora de fazer poesia diária
é o minuto de usar a própria irracionalidade
a favor, ficou impossível
a impassibilidade da lógica.

Tantas perdas no meio do caminho:
sentimento agudo e mesquinho
de existirem muitos que mesmo ao redor
são os que te deixam mais sozinho.

IJS


quarta-feira, 14 de março de 2018

Avaro


Avaro,
conto as palavras
com que pretendo dizer
algo
-- quase nada --
do tudo que quisera.

(Raras, as palavras
não vingaram na primavera.)

Zero é um número que não vale nada.
Mas quando adicionado
aos outros números,
é como um mundo que se cria.

Avaro,
conto as palavras...
Vai vir o dia
em que não direi nada,
não serei nada:
partícula abismada no tudo.
Aí tudo estará bem.
Ou nada.

Avaro,
me calo
ante o mistério do nada.

(Nada
é
tudo.
Tudo
é
nada.)

Otto Leopoldo Winck


poesia


poesia
te queria calma
palavra impressa na alvura da página
oásis no Saara
portal do paraíso
no entanto és chaga
que me corrói a pele
e me inflama a noite
em espirais insones
poesia
te queria lírica, épica
até dramática
mas não assim
insana

Otto Leopoldo Winck

UM CONTO




– Oi.
– Oi.
– Não me viu?
– Desculpa, tenho andado distraído.
– Você vive distraído – ela riu.
– É verdade. Eu já nasci distraído. Meus olhos muitas vezes estão voltados para dentro.
– E o que você vê quando olha para dentro?
Agora foi ele que riu. Na verdade um sorriso. Um sorriso tímido de quem olha muito para dentro.
– Eu vejo uma grande escuridão. E algumas luzes.
– Você é engraçado. Fala como se fosse personagem.
– Às vezes eu acho que sou um personagem.
– E o que acontece no seu livro?
– Nada. Quase nada.
– Que pena. Se eu entrasse no seu livro podia acontecer alguma coisa.
– O que, por exemplo?
– Ah, a gente podia tomar um sorvete.
– Sabe que é uma boa ideia?
– Tomar um sorvete?
– Sim, mas sobretudo entrar na minha história.
– E o que eu faria na sua história? – ela perguntou.
– Você podia ser uma luz. Uma dessas luzes que brilham na minha escuridão interior.
– Ah, não quero.
– Não quer?
– Não, não quero ser apenas mais uma luz.
– Garanto que você seria uma das estrelas mais brilhantes.
– Não basta.
– O que você quer ser então?
– Quero ser teu sol. E brilhar tão forte que as outras estrelas apaguem.
– O sol da minha noite?
– Sim, o sol da tua noite.
– E se apagar um dia? Os sóis sempre apagam.
– Não importa. O que importa é que enquanto brilham não há necessidade de outras luzes.
– Bonito o que você disse. Vou botar na minha história.
Ela riu de novo.
– Quando que você vai sair do seu livro imaginário?
– Nunca. Agora que você entrou não vou sair nunca.
– Há, há. Mas a história termina bem?
– Não sei. Se for história de amor acaba mal. Como todas as histórias de amor.
– Por quê? E o “foram felizes para sempre”?
– Olha, sempre que você ler num livro “foram felizes para sempre” na verdade quer dizer “ficaram entediados para sempre”.
Riram.
– É, o que importa é o brilho do momento – disse ela. – Mas então, termina mal esta história em que estou entrando?
– Não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. Saber o final tira a graça.
– É verdade. Vamos curtir então enquanto brilha o sol da meia noite...
– Quanto mais profunda é a noite, mais bonita é a luz.
– Estou dizendo: você fala que nem personagem.
Ele riu.
– Bom, em que parte da história estamos agora? – tornou ela.
– Ainda no começo. Na parte em que ela convida ele pra tomar um sorvete.
– E ele aceita?
– Ele já aceitou. Que sabor você quer?

Otto Leopoldo Winck




enterrem-me com minha kalashnikov
na curva do rio
na beira da estrada
no fundo do vale
onde caíram os homens, as mulheres, as crianças
na noite mais funda
na hora mais dura
no tempo mais sujo
e cujo sangue é este
que no céu estrelado
já avermelha a aurora

Otto Leopoldo Winck

UM CONTO - II




– Oi.
– Oi.
– Adorei aquele dia o sorvete com você – ela disse e ele reparou que ela estava linda.
– Eu também. Mas sobretudo a companhia.
– Oh, obrigada.
Riram. Timidamente. Todas as histórias de amor – reais ou fictícias – começam assim: com “ois” e tímidos sorrisos. E, ai, como são bestas! Se não fossem bestas, não seriam histórias de amor. (Fernando Pessoa disse algo assim. Mas dane-se Fernando Pessoa.) Se os apaixonados soubessem, não passariam disso. Depois vêm as dúvidas, os medos, os ciúmes, as brigas, as reconciliações dramáticas e, se o amor sobreviver a todas essas provas, o longo e melancólico definhamento do tédio a dois.
– Bem, agora que eu entrei na sua história – ela prosseguiu –, qual é o próximo capítulo?
– O próximo capítulo? Não pensei ainda. Mas acho que é assim: eles se encontram dois dias depois no mesmo corredor da universidade. Aí ela diz que gostou muito do sorvete com ele e pergunta sobre o próximo capítulo.
– Acho que você está improvisando essa história...
– Às vezes o escritor sabe o que está escrevendo, outras vezes não. Como na vida, tem horas que é melhor seguir a intuição.
– E o que a tua intuição diz?
– Diz que ele deve convidar ela para um café agora.
– Aprovado. Está muito frio para um sorvete hoje.
Meu Deus, como é dura a vida de narrador... Narrador sabe tudo. Sabe que depois deste café inocente haverá outro, menos inocente, e depois será uma cerveja, e numa noite mais fria ainda um vinho tinto e doce (porque ela só toma vinho doce). E haverá um cinema, uma peça de teatro, o lançamento de um livro, longas horas de conversa nas redes sociais madrugada adentro, e um hotel no centro da cidade, e dúvidas, e medos, e ciúmes, e brigas, e reconciliações dramáticas e, se o amor sobreviver a tudo isso, o longo e melancólico definhamento do tédio compartido. Ou então – por que não? – haverá um rompimento. E eles ficarão anos sem se ver. Então um belo dia eles se cruzam numa festa, numa recepção, num encontro de trabalho. Eles estão separados (de outros, porque não casaram entre si), recasados e com filhos já grandes. Depois do reconhecimento, novamente a insegurança (“ela vai me achar velho”, “ele vai me achar gorda”), mas as conversa, movida a um excelente Bordeaux, evolui de insignificâncias (“fiz doutorado na França”, “meu marido é engenheiro”) a confissões (“nunca te esqueci”, “você foi o amor da minha vida”).
– Me lembro de como você era distraído...
– Me lembro daquele sorvete...
– E daquele café...
– E de como você tinha medo na primeira noite...
– E de como você estava linda...
– Agora está tudo caído.
– Que nada, você está ótima.
– Você também.
– Bondade sua.
Riram. Um riso tímido como vinte anos atrás. No entanto, nada acontece. Cada um volta para sua casa ou seu hotel. Trocam algumas mensagens. Depois perdem novamente o contato. O tempo de os dois serem felizes tinha passado. Fora naqueles dias de sorvete e café e o primeiro beijo e o primeiro suspiro de saudade. Mas agora eles ainda estão no café. O tempo não transcorreu ainda. E eles não sabem de nada do que vai acontecer. Não sabem das dúvidas, dos medos, dos ciúmes, das lágrimas vertidas no travesseiro à noite, das reconciliações dramáticas e do rompimento final. Não sabem também do reencontro vinte anos depois. Não sabem da dor imensa que vão sentir, depois desse reencontro, ao voltarem para os seus quartos sozinhos e constatarem que o tempo de serem felizes passou e eles o desperdiçaram por causa de um orgulho idiota. Não, não sabem de nada. E é bom que não saibam. Deixemo-los então tomando um café expresso e trocando tolos sorrisos. Ah, como é dura a vida de um narrador onisciente!

Otto Leopoldo Winck


Acho que estou meio com medo de morrer


Acho que estou meio com medo de morrer
porque o céu é azul
e todas as coisas de repente estão belas.
No mais, tudo segue o seu rumo: rumores de carros,
latidos de cães, vozes distantes.
Viver é saber se deslocar na vida
com o mínimo de ruído e atrito.
O céu é azul mas poderia não sê-lo. Poderia ser lilás, ou roxo, ou vermelho -- como no dia do juízo final.
Mas não: não haverá juízo. O céu é azul e os anjos morreram sufocados no ar porque o amor foi perfuro.
Uma criança chora.
Uma criança chora e todas as coisas seguem no seu ritmo: carros, cães, pessoas.
Há pássaros invisíveis nas árvores.
Não os vejo mas os ouço.
Acho que estou meio com medo de escrever um poema
e ele soar idiota
porque o céu é azul e todas as coisas seguem o seu destino.
Há pássaros nas árvores. O céu é azul.
As coisas seguem o seu caminho
e todos os poemas são idiotas.
Se há algum sentido, o sentido está fora das coisas.
De repente não há. O sentido é este: o céu é azul e todas as coisas estão belas. (A beleza dói como chaga.)
Há pássaros. Azul é o céu. Um cão late. Uma criança chora, meu Deus, e viver é saber
se deslocar no espaço feito um anjo
com o mínimo de ruído e atrito.

Otto Leopoldo Winck



uns lençóis baratos recobrem meu silêncio.
um ananás do passado mostra a lucidez do meu corpo.
não vim ser anjo,
vim ser estardalhaço."
RR

A caça e o caçador




À beira do abismo, a caça;
encurralando-a, o caçador.
A caça sabe que está frita,
o caçador já conta as favas.
Ele aponta pra ela sua arma,
ela treme, os olhos inquietos.
Quando o caçador vai atirar,
a caça se lança no abismo,
os olhos a sorrirem, certa
de que, se não ganhou, fez
o caçador perder também.

*** Tuca Zamagna



os poetas rasgam olhos
limpam línguas, cospem putidão.
os poetas sinistrados
de paixão."
RR

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Camarada Comissário

Não, ele apenas deu uma gota minúscula do que é estar do outro lado.Não , o judeu não obrigará o alemão levar outro alemão para dentro de um forno crematório.Não senhora , ele o Juden também não ficará brincando com a pistola estando diante de uma vala comum com  centenas de corpos .O nazista  andará a pé até algum gulag na Sibéria ou voltará pra sua Alemanha.(depende em qual inverno ) deve  ele lembrar de Deus e orar para que o oficial soviético  e seus soldados não tenha passado por aldeias onde mulheres e crianças  russas, chacinados pelas ss e a sua gloriosa werchmacht..sua esposa não será  a lembrança de mulheres que já não existem mais .Nem a russa ou até mesmo a alemã.Que sorrirá com todos os lábios por um chocolate e um cigarro.Passará o soldado, murmurando, que só cumpria ordens e caso não as  tivesse cumprido ,teria sido morto, um manto de vergonha foi o derradeiro legado de hitler para a nação alemã.As vísceras de Dresden e Berlin urram para os céus e não existe uma única fresta para respirar ,para ressuscitar dos escombros, das cinzas .O soviético tenta não ver vinte milhões de pais , mães ,filhas, netos e mesmo  assim, judeu que é, não mata o alemão e dá o seu rifle a um fantasma ,que aos poucos retorna do mundo dos mortos e esse Herr viverá para encontrar no meio dos escombros, o que restou de luz nos olhos de sua família. Bom, o oficial do campo e os ss devem estar pendurados dançando por aí enquanto os cossacos tocam seu acordeom e  sua balalaica . Guerra é arame farpado rasgando a alma , cortando sonhos e abrindo com a dor outros olhos que jamais verão campos verdes e floridos até brotar alguma criança no útero estéril de tanto levar chutes de sombras que invadem amanheceres, uma gota de sangue molhando um sorriso no olhar .Olhos negros , castanhos , azuis de sonho rasgados de esperanças suando pétalas numa flor tocando o lábio do amante , esposa que espera no silêncio as sombras dos uivos vazios cansarem de açoitar .Ela um dia será sol novamente . ..Nada do que é humano me é estranho

Wilson Roberto Nogueira

P.S Em memória dos milhões de mortos na grande guerra patriótica  e da Schoah .  .

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Carnaval


lembro-me do carnaval.
Você pulando inexata, feliz, multifária.
Eu – tomando cerveja
e vendo a noite extinguir-se
em pálidas mãos cor-de-rosa
(o silêncio do céu
indiferente ao formigar da terra).
Mas você pulava tão linda e feroz e icônica
que eu pensei que era infinda
sua alegria, infinita
minha tristeza,
e o céu era precário e a aurora era um erro.
Em redor do meu coração
ressoava um mar
inexplicado. E a noite esvaía-se sobre o cais na praia,
sigilosamente.
Você deixava um, pulava com outro.
Eu – comprava outra cerveja.
OLW



LUZÊNCIA
Entre o verme que me espera 
nas entranhas da terra
e a estrela que me espreita
das alturas azuis,
minha vida se desenrola, 
ora baça, ora envolta em luz...
Se é na sarjeta que a lua é mais bonita,
é na noite mais escura
que os teus olhos brilham mais

OLW

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A CASCA MÍTICA



Está doendo em meus ombros
uma cesta de impérios (dinastias
arrastadas em meus braço
sobre o penhasco dos séculos). Está

doendo em meu sangue,
em minhas etnias.

(As casas velhas derramadas
na memória; o abrigo
dos que morreram
sem o nome de um deus
nos lábios...).

Está doendo o que tosse
na noite fria; o que naufraga
com os pés no barro.

Siderado aos rastros,
carrego o troféu do anônimo
cortejo: essa lenda
misturada ao pó --, nos corredores
de manhãs avulsas,
com seus barcos ancorados
nas pupilas.

Está em mim esta agonia bárbara
de bater à porta dos leões,
como quem procura água
na casa do fogo;

está no labirinto
das utopias feridas pelos cães (ou
no que se agrega ao idioma
e seus nutrientes: essa estaca
pendurando vozes).

É disto que esplendo
minhas hipérboles, cego
de alumbre e assombros: um Tirésias
que vê pelas sombras.

Está doendo a sucursal de mim;
ante as palavras a crédito
e as tarifas do paraíso. Ante

os que matam por caridade
e os que mentem com se rezam.

Deste havido às mutações
da usura,
são minhas hélices de fogo
e o poema falando com as pedras.

SALGADO MARANHÃO
(Do livro A Casca Mítica)



COMPROMISSO



a Bandeira Tribuzi, 91 anos

Luis Augusto Cassas

Tenho um encontro marcado
às seis horas da tarde
na avenida Beira-Mar
E não posso faltar

Não é para salvar o mundo
combater a solidão
que fui convocado

nem para esperar algum barco
salvar um amigo em naufrágio
que fui convidado

O motivo do compromisso
não digo a vocês — é secreto —
garanto não é político
juro não é romântico
aposto seja econômico

Sei apenas que às seis horas da tarde
tenho um encontro marcado
na avenida Beira-Mar
E não posso faltar

2
Fosse convidado a presidir
uma reunião da ONU
sobre direitos humanos
não compareceria

Fosse passear no bosque
com a Branca de Neve
me atrasaria

Fosse o que fosse
decolar pra Bangkok
fugir pra Bahia
casar com Teresa
transar com a Maria
passar férias em Marte
depor a favor da arte
tocar fogo na Academia
Hoje eu não iria

Porque não posso faltar
a um encontro marcado
às seis horas da tarde
na avenida Beira-Mar

3
Que eu não posso faltar
diz minha moral burguesa:
eu não posso faltar
diz o código de honra
eu não posso faltar
diz o relógio de pulso
eu não posso faltar
eu não posso faltar
eu não posso faltar

desejo de saber o porquê
dos horizontes imperscrutáveis
dos vínculos indissolúveis
das mulheres insaciáveis
dos cumes inatingíveis
das ideias irreconciliáveis
dos poderes irrevogáveis
e depois de tudo perguntar:
por que não posso faltar?

Vontade de tomar o trem da Refesa
o primeiro que sair da estação ferroviária
e partir rumo ao ar puro de Perizes
saber como vão as garças
as marrecas as seriemas
(— bom dia, senhoritas!)
e depois seguir até o final da linha
só para poder faltar
a esse compromisso

4

Vontade de seguir no barco
que segue para Alcântara
Vontade de caçar jaçanãs
em São Bento

Vontade de seguir
o primeiro impulso:
cortar os pulsos
deixar o sangue jorrar
só pra conhecer o fator rh

E por imposição testamentária do morto
meu corpo cheirando a perfume francês
a rosas vermelhas e lágrimas de saudade
seguiria triunfalmente
(os olhos abertos)
pelas ruas da cidade

Na programação
uma modificação:

o trajeto do enterro vai se desviar

E pontualmente
às seis horas da tarde

britanicamente
às seis horas da tarde

o morto passaria na avenida Beira-Mar

Não para desmarcar o encontro
não para se justificar

Apenas senhores

para ver o mar

Planura



Cresce em meus ombros
a planura dos dias
idos:
um rito
que me veste em outra
casca.

Cresce a lava do crepúsculo.

Ò grito primordial
que adestra as palavras
para onde migro; ó
espasmo que desata
os ritmos!

Estou cingido ao sangue
e ao poente que
- furtivo -
me deserda.

E o poema hospeda-se
em meu voo
de fênix
face às sílabas da recusa.

Já não é a sagração
do trigo,

nem o rumor
da memória inacabada;

é a corrosão da argila
que se despede sem partir.

Estou brotando das cicatrizes,
sob a derme das hiras
e do seu presságio.

Ninguém suborna o tempo.

Salgado Maranhão



Desamanhecer




Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.

Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.

Salgado Maranhão




os policiais que miram nos jovens
negros e revistam as bolsas e mostram os cacetetes
e mostram quem manda os cães do estado
mostrando quem manda neles e eles mostrando
que obedecem
porque os cães são obedientes e bem alimentados

o casal com o carrinho de cerveja ela tão jovem
saia jeans evangélica e o marido tão jovem
anunciando a oferta de três latas por dez reais

os funcionários do bob's devidamente uniformizados
saíram em dupla com dinheiro na mão em busca
de troco o troco exposto na mão eles passam e correm
no meio do bloco de carnaval

um homem negro vestido de rei africano na escadaria
do rosário o maracatu o rei africano o rosário

a caixa do posto de gasolina que responde ao
bom carnaval com sim, claro, aqui atrás do balcão
e a senhora pergunta se ela trabalha direto e ela
responde que sim, trabalha direto e abaixa a cabeça
e sorri

a praça xv cercada de tapumes fecharam a praça
os moradores da praça distantes dos braços
da figueira que promete coisas depois de 7 voltas
ou outras voltas promete coisas a figueira de braços
abertos e vazios

um homem velho sentado embaixo da marquise
da loja de departamentos enquanto a chuva
porque não tem figueira nem abrigo ou casa

carnaval, o carnaval, o carnaval
eu fico triste quando chega o carnaval
cantado no elevador botão nove apertado
gustavo e luiza comigo

a porta a dois segundos de abrir
para depois voltar a fechar.

Marcelo Labes


poesia é beco sem rua
só palavra intermitente:

poesia se come crua."

RR

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A CASCA MÍTICA – continuação...


3. (A CASCA MÍTICA – continuação...)

Sobrevivo de estar bêbado
de luz. Entornado

ao nevoeiro
das coisas ínfimas.

É insano cantar --
uivar sobre os lírios secos
nesta planície ancorada.
É insano morrer.

Nada esplende
entre o deserto e o som das ruínas.

Imagino a melodia
do corpo ardente,
no prolongado rito da palavra,
no passaporte para ser pássaro.

E transbordo desta caligrafia
de dardos;
não há sonho que escape
ao espinho.

SALGADO MARANHÃO
(DO Livro “A CASCA MÍTICA”)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018


Eu tinha certeza que o taxista era Jamil Snege. Tarde de verão e o agito da cidade antes do carnaval. Uma rua qualquer no Centro e você precisa ir de táxi, ainda que perto, ainda que ninguém entenda. O pé dói. Ponto final. O trajeto curto demais torna tudo mais surreal. Quero perguntar algo e temo que quebre o encanto. A camisa é tal qual aquela da única vez que o vi, saindo com um amigo da Livraria Ghignone, fumando um cigarro, a outra mão no bolso. Lembro que estanquei o passo em plena Rua das Flores e pensei: é o escritor. Fiquei com aquela imagem, com aquela vontade de não ser tão tímida, de atravessar metade da rua, falar com ele. Mas ele seguiu conversando e eu segui minha vida. Não demorou muito para saber de sua morte. Agora eu tinha certeza que era o Jamil Snege ali a me conduzir, com a mesma roupa, a mesma silhueta calma. Tive medo que ele começasse a praguejar contra o Lula ou falar de religião, como fazem os taxistas. Implorava aos céus que ele não quebrasse o encanto e me fizesse crer que nas tardes de verão Jamil Snege desce à terra e conduz, de forma invisível, os escritores invisíveis da sua Curitiba. "Como tornar-se invisível em Curitiba?" - Snege sabia. Para minha alegria e êxtase ele diz apenas: o sol está mais quente hoje. Sim, tudo está mais hoje, para minha alegria eu pude manter aquela fantasia. Quase disse a ele sobre sua célebre dedução que - para tornar-se invisível em Curitiba basta ter talento - quase disse: nada mudou... Mas, apenas desci e o vi desaparecer, a camisa azul clara, os cabelos brancos e esta certeza de que a magia existe, a gente a encontra ali, na próxima esquina, ao acenar para um táxi.



Barbara Lia